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Ignácio de Loyola Brandão
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Os segundos finais de um condenado

Durante dias e dias fiquei assombrado com o episódio do traficante brasileiro fuzilado na Indonésia. Nada a ver com os pedidos de clemência feitos a seu favor e recusados. Por que haveria o governo indonésio de atender a um pedido que vai contra a lei do seu país? Será que a presidente imaginava que lá, como cá, a lei pode ser mudada ao sabor das vontades? Quando a Itália pediu Cesare Battisti, o que fez o governo brasileiro? Deu cidadania brasileira ao homem. Nada sei de questões internacionais e parece que a dona Dilma também não. Meu problema é outro.

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

23 Janeiro 2015 | 02h07

Sabemos todos que vamos morrer. Não sabemos a hora, como diz o samba. Vivemos na ilusão de que ela não virá, ou virá quando formos muito velhos. Assim, a morte é distante, negamos que vá acontecer. Mesmo nas doenças. Você está terminal e tem a esperança de que no dia seguinte um cientista descobrirá a cura para o seu mal.

O que penso e me angustia é: como se sente uma pessoa que sabe o dia, a hora, o minuto em que vai morrer? Sabe como vai morrer. Como fica essa cabeça, estômago, coração, tudo? Vira tudo um vazio? Ainda sente fome, sede? Agarra-se a uma esperança de uma reviravolta no destino? Quem sabe uma fuga? A clemência? Mas e quando a clemência é recusada e a morte se torna inexorável?

Você entra em estado de choque, entra em transe, pira totalmente ou conforma-se? Adianta nesta hora acreditar em alguma coisa, ter alguma fé? Não falo de terroristas suicidas que dão a vida por um Deus, uma crença. Falo de um sujeito que decidiu por um tipo de vida marginal, sem ética, sem escrúpulos, sem limites, um traficante de drogas. Ou estou sendo juiz? Bate nele o terror, a paralisia, enlouquece, desesperado? Pensa na sua vida, recorda-se, rememora, repassa tudo, arrepende-se (do quê?). Enfia-se nas lembranças? Ou pensa, o tempo inteiro, sem dormir, sem parar, que cada hora é uma hora a menos, um minuto a menos, um segundo a menos. Como é esta caminhada rumo ao poste onde o indivíduo é amarrado e tem o rosto vendado? Algum condenado já recusou a venda? Olhou para os carrascos?

Lembrei-me do filme Gloria Feita de Sangue (Paths of Glory) de Kubrick, de 1957, ano em que cheguei a São Paulo, em que um dos condenados, o soldado Maurice Ferol (interpretado por Timothy Carey) apavorado, segue tremendo, chorando, se borrando para o muro de execução, inconformado, revoltado, indignado, amedrontado. É a dor de deixar esta vida ou é o medo de não saber o que há do lado de lá, se há um lado de lá? Aquele choro é uma das cenas mais dramáticas do cinema.

Então me lembrei de um dos melhores livros de Norman Mailer, A Canção do Carrasco, não um romance e sim uma extensa reportagem, à la Truman Capote (A Sangue Frio), que recebeu o Prêmio Pulitzer em 1980. No entanto, Mailer publicou seu livro em 1979, enquanto o de Capote saiu em 1965, mudando a forma de fazer jornalismo. Mailer seguiu a trajetória atormentada de Gary Gilmore, reconstituindo todos seus passos, crimes, roubos, latrocínios, prisão e condenação à morte aos 37 anos, em 1977. Gary nunca pediu clemência. Ao contrário, determinou: "Que me matem por fuzilamento". A descrição final de Mailer arrepia. O condenado sentado, um oficial coloca um círculo branco sobre seu peito - o alvo onde deveriam atirar. Os que fuzilariam estavam atrás de uma lona e as armas eram enfiadas por uma pequena abertura. Os tiros pareceram trovões aos que assistiam, porque havia mais de 50 pessoas "na plateia", como se fosse um grande show. No livro, conta-se que, um segundo antes de morrer, o diretor da prisão perguntou a Gilmore: "Tem alguma declaração a fazer?". Ele sorriu e disse calmamente: "Vamos acabar logo com isso".

Na Indonésia, ao menos, não se permite auditório. São os atiradores (uma só arma tem bala verdadeira, ninguém sabe qual), um ministro da fé que o condenado pratica e o comandante. Pergunto: será que cada atirador tem a certeza de que a bala mortal não é a sua? Ou há uma questão de consciência? Culpa? Ou nada disso? O que fica em minha cabeça é esta caminhada que o brasileiro fez até o poste de execução. Pareceram milhares de quilômetros? Ou um segundo? A bala ao penetrar provoca dor? Ou não há tempo, o coração para na hora, o sistema nervoso se desarticula? É o fim.

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