Os segredos de uma feira literária

Programador da Flip revela como funcionam os bastidores do evento de Paraty

Flávio Moura, O Estado de S.Paulo

09 de maio de 2010 | 00h00

Um dos lados divertidos de trabalhar na curadoria da Flip é receber dicas. Não há pessoa próxima que não tenha sugestão de autor. No mais das vezes, a ideia é bem-vinda e ajuda a engrossar a lista de possíveis convidados. Mas sempre há quem acredite que eventuais ausências se devem ao esquecimento da curadoria. Muita gente acha que basta estalar o dedo para ter um autor de grande porte no evento - e vem com olhar condescendente apontar uma falta na programação. "Umberto Eco", sussurram alguns. "Woody Allen, chama o Woody Allen", assopram outros. "Cara, o Philip Roth, por que você não chama o Philip Roth?" Foi engraçado nas primeiras 350 vezes que disseram isso.

Escolher os autores de maior destaque da Flip é mirar nas grandes figuras do mundo ilustrado e acertar nas que têm interesse em vir ao Brasil ou estão acostumadas a excursionar pelo mundo para promover seus trabalhos. A Flip, nunca é demais lembrar, não oferece cachê. A persuasão tem de se dar por outras vias - e para isso a lista de convidados das edições anteriores costuma ser atrativo poderoso.

Também por isso o trabalho é feito em contato próximo com as editoras. Todo ano há quem venha contar quantos autores de cada editora estão presentes e suspeitar de alguma forma de favorecimento. Mas o fato é que a curadoria trabalha em relação estreita com todas as editoras cujo catálogo se aproxima do perfil dos autores da Flip. Parcela expressiva dos convites é feita por intermédio delas - e a elas se deve creditar a presença de muitos dos grandes nomes que já estiveram em Paraty.

Claro que sempre há interesses em jogo. A editora tende a trabalhar com mais afinco para a vinda de um autor com livro para ser lançado na época da Flip. Mas isso é bom para todo mundo. Os jornais têm "gancho" para tratar do assunto - a presença na Flip já justificaria a pauta, mas um livro novo é garantia de espaço maior. O público tem acesso fácil à obra do autor de seu interesse. E a mesa na Flip também ganha um mote, o que faz sentido para que os autores voltem ao festival. Salman Rushdie, por exemplo, esteve em Paraty em 2005 para lançar Shalimar, O Equilibrista. Agora, volta para falar sobre seu livro mais recente, Luka e o Fogo da Vida. O autor é o mesmo, mas o assunto é outro.

Agenda. Isso não quer dizer que a Flip deixará de trazer um autor importante apenas porque não há lançamento previsto. A projeção da festa é grande demais para que fique a reboque do calendário das editoras. Em muitos casos, o efeito contrário pode ocorrer: a presença de um autor em Paraty vir antes de sua publicação no País. O exemplo mais imediato é Tom Stoppard, que veio em 2008. É um dos maiores dramaturgos em atividade no mundo. Mas quase nada de sua obra teatral estava publicada em português (teatro, como se sabe, só não é um desastre comercial maior do que poesia). Depois da Flip, algumas de suas peças foram encenadas por companhias importantes e uma editora grande anunciou a publicação de seus trabalhos. Não dá para atribuir o feito apenas à Flip, mas é certo que a presença em Paraty ajudou a inseri-lo na agenda cultural do País.

Há um lado voyeur no trabalho da curadoria. Tentar acesso às grandes figuras da literatura é ouvir sobre sua vida íntima - usada como desculpa para recusa nas respostas mais educadas. Um celebrado autor de origem latina é um desses casos. Em 2008, não pôde vir porque tinha "um importante casamento na Itália". Convidado para 2010, esse mesmo autor justificou a ausência com um detalhado relato sobre seus cistos na coluna. Uma outra autora residente nos EUA, ainda mais jovem e celebrada que o primeiro, costuma dar respostas menos críveis. Na última delas, alegou que o cachorro estava muito doente e não poderia em hipótese nenhuma ser abandonado.

Nem sempre estamos diante de desculpas, porém. E a insistência nessas ocasiões pode se transformar numa prova de insensibilidade. Foi o que aconteceu com Tony Judt. O grande historiador britânico havia confirmado presença em 2008. Poucas semanas antes, cancelou. Em 2009 a curadoria voltou à carga: sua presença em Paraty seria sucesso na certa, renderia páginas e páginas nos jornais, daria prestígio, enfim, parecia o caso de insistir. Mais uma vez, a resposta era negativa em razão de doença.

Este ano, a curadoria estava prestes a mandar novo convite quando um artigo de Judt numa publicação americana expôs seu problema de saúde. Ele padece da mesma doença degenerativa do físico Stephen Hawking. A foto dele em cadeira de rodas, os membros retorcidos e a respirar por ajuda de aparelhos, sintetizava a gravidade da situação.

Há um automatismo na lida com os convites que às vezes atrapalha: é grande o risco de acabar trabalhando apenas para comprovar o prestígio da Flip, expor quanto a curadoria é "antenada" com o debate internacional, confundir escolha criteriosa com mercantilismo da notoriedade alheia. O caso de Judt é um exemplo claro.

E esse não é traço apenas dos festivais literários. Quem quer que trabalhe com cultura está sujeito ao risco: o nome do autor às vezes parece que se descola do seu trabalho, vira objeto de desejo numa luta por distinção que caminha de mãos dadas com o fetichismo. Daí para o universo das grifes do mundo da moda é um pulo.

Callas. Os agentes literários são o maior sintoma dessa lógica. Um escritor mediano que já tenha ganhado prêmio e obtido alguma repercussão crítica é tratado pelo agente como se fosse a Maria Callas (falamos de autores que escrevem em inglês e fazem sucesso nos EUA, naturalmente). A agente de uma autora respeitada, mas nem de perto tão celebrada quanto muitos que já foram à Flip, queria US$ 60 mil e duas passagens de primeira classe para que sua cliente desse as caras em Paraty.

Mas nunca eles foram tão poderosos. Um agente literário com uma lista forte de autores tem as melhores editoras do mundo à sua disposição. Ele não controla só os direitos autorais, mas a qualidade das traduções, as estratégias de marketing, o projeto gráfico. Parte do trabalho dos editores - e dos curadores da Flip - é cultivar boas relações com os agentes mais importantes. E brigar para não acabar preterido num jogo que é cada vez mais impessoal e agressivo. Não por acaso, o agente literário mais poderoso do momento (ele é a cara do John Malkovich) atende pelo singelo apelido de "chacal".

É preciso miopia para achar que a Flip não mudou a paisagem cultural do País. Sua presidente, a editora inglesa Liz Calder, teve e tem papel decisivo para a inserção internacional fora de série obtida pela festa, além de acompanhar de perto cada passo da programação. A Casa Azul, entidade que organiza a Flip, começou a desenvolver trabalhos sociais e urbanísticos em Paraty muito antes de o evento surgir, preencheu lacunas deixadas pelo poder público e encontrou uma química entre cultura e cidade que explica parte do sucesso da Flip.

Mas o Brasil continua sendo um país de poucos leitores na distante América do Sul. Não há pré-sal, Olimpíadas ou Copa do Mundo que mude essa condição de destino exótico aos olhos de muitos autores. Convidado para a edição de 2008, o crítico George Steiner resumiu bem o problema em sua resposta. A carta vinha batida à máquina, numa folha timbrada da Universidade de Cambridge: "Caro senhor: estou prestes a completar 80 anos e o Brasil está, infelizmente, fora de questão."

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