Os segredos das rimas cifradas

Em Decoded, feito com a colaboração da escritora Dream Hampton, Jay-Z desconstrói as próprias composições. Ele escolheu 36 letras e analisou alguns de seus versos. A maioria pertence a Black Album (2003), o disco mais autobiográfico do artista, que lançou o primeiro trabalho, Reasonable Doubt, em 1996.

Francisco Quinteiro Pires, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2010 | 00h00

Jay-Z comenta em verbetes certas passagens cifradas. A música Soon You"ll Understand tem o seguinte verso (tradução livre): "Você merece coisa melhor - isso é feio; Gina, deixa de me amar, por favor." Gina é a irmã de Tony Montana, protagonista do remake Scarface (1983), filme de Brian de Palma. Ela simboliza a mulher que se arruina em contato com o mundo do crime. Com isso o rapper revela a variedade das influências, de personalidades históricas a personagens de ficção: Malcolm X, Martin Luther King, Muhammad Ali, Spike Lee, Marvin Gaye, Che Guevara, Tony Montana, Gordon Gekko, Little Orphan Annie, Lúcifer.

Jay-Z conta que os discos de funk e soul acumulados pelos pais foram fundamentais para criar o seu interesse musical e a base das suas composições. O rap, ele explica, tem dois tipos de ritmo. "O primeiro é dado pela batida que nunca varia num compasso 4 por 4. O segundo é o ritmo do rapper, irregular como a vida, a respiração ou o coração."

A poesia, porém, vem à tona só quando transcende essa estrutura. Entre as letras analisadas em Decoded- cuja capa (foto) reproduz Rorschach, obra de Andy Warhol - estão My President Is Black e History (ambas à espera de gravação). A primeira é uma referência à eleição de Barack Obama. A segunda fala de um traficante transformado em rapper. "History tem a mesma intenção que as outras: usar as experiências específicas da minha vida e o mundo onde cresci para contar uma história de maior alcance sobre o significado de estar vivo." Em Decoded, enquanto as rimas variam, o tema permanece.

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