Os segredos da fotografia

Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro este ano, o argentino O Segredo de Seus Olhos, sem trocadilhos, saltou aos olhos do público principalmente por apresentar uma direção de fotografia excepcional. Assinada por Felix Monti, a concepção visual do filme (dirigido por Juan José Campanella) chamou atenção até dos não especialistas no gênero. Quem assistiu ao filme com certeza quebrou a cabeça pensando em "como a cena do campo de futebol foi feita".

Flavia Guerra, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2010 | 00h00

Fruto da união do trabalho de Monti e de uma equipe de computação gráfica, a sequência já entrou para o olimpo dos "melhores plano-sequências do cinema"."É só uma longa sequência em que a câmera sobrevoa o estádio, voa pelas arquibancadas, passa pelos atores e "vai parar na bola". Usamos cenas filmadas e as "colamos" digitalmente para simular o efeito de "uma única sequência"", explica Monti, diretor de fotografia de O Segredo.

É justamente Montí quem vai explicar para o público paulistano como fez para unir tradição e tecnologia neste e em outros filmes premiados. O fotógrafo argentino participa hoje, às 14horas, do debate Red Day, na Cinemateca Brasileira.

O encontro integra a programação 2010+10, em comemoração aos 10 anos da Associação Brasileira de Cinematografia (ABC). "É importante não só unir profissionais da área, mas abrir ao público o debate sobre a fotografia. Um espectador pode não entender nada de técnica, mas sabe, mesmo que intuitivamente, valorizar um bom trabalho."

Particularmente feliz em voltar ao País, Monti (que nasceu no Brasil mas é argentino) assinou diversos títulos brasileiros, como O Auto da Compadecida, O Quatrilho e O que É isso Companheiro? "O cinema brasileiro foi crucial na minha carreira e na minha formação. Foi com o Cinema Novo que percebi que um outro cinema era possível. Que nem tudo precisava ser tão linear e esquemático."

Além de Monti, que finaliza novo filme (O Mural, de Héctor Olivera) e já se prepara para começar um outro, o ciclo de debates 2010+10 recebe amanhã o americano John Bailey. Ele é diretor de fotografia de títulos como Gente como a Gente, de Robert Redford; Melhor É Impossível, de James L. Brooks; e Mishima, de Paul Schrader, pelo qual levou o prêmio de Melhor Contribuição Artística no Festival de Cannes 1995. Na quarta, é a vez da diretora de arte Anastácia Masaro, de O Mundo Imaginário de Doutor Parnassus, de Terry Gilliam.

Na sexta, destaque para o painel A Fotografia Cinematográfica pelo Olhar dos Diretores de Cinema. Com coordenação de Lauro Escorel, o encontro conta com a participação de Laís Bodanzky, Luís Fernando Carvalho, Paulo Sacramento e Walter Lima Júnior.

Monti, que prefere conversar a palestrar sobre seu ofício, defende a realização de eventos como este. "Vivemos em uma época em que a película perde espaço para o formato digital. O próprio Segredo foi filmado digitalmente. A tecnologia interfere na linguagem. Há uma forma diferente de filmar e isso tem de ser sempre discutido", comenta. "Ainda prefiro a película, mas esse é o futuro. Cabe a nós tirar o melhor proveito dele."

Quem é Felix Monti

Diretor de Fotografia

CV: Nascido em 1938, é diretor de fotografia argentino. Monti ganhou vários prêmios por O Segredo de Seus Olhos e também assinou a fotografia de A Menina Santa; de Lucrecia Martel; O Auto da Compadecida, de Guel Arraes e A História Oficial, de Luiz Puenzo.

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