Os rostos consumidos de Gullar e Bonfanti

A sensação é a de que, se fosse pintor, o poeta Ferreira Gullar não faria muito diferente do que faz Gianguido Bonfanti no livro Ossos e Vozes (editora Contra Capa), que terá lançamento hoje à noite no Rio de Janeiro, na galeria Gustavo Rebello Arte (Av. Atlântica, 1.702, loja 8). A exposição traz não apenas as ilustrações (guaches, nanquins e gravuras) que Bonfanti fez para os poemas escolhidos de Gullar - principalmente dos dois livros mais recentes, Muitas Vozes, de 1999, e Em Alguma Parte Alguma, este recém-publicado -, mas também outros trabalhos inéditos de Bonfanti, como a nova série de autorretratos a óleo, dos quais Gullar é admirador de primeira hora. Além disso, livro e exposição são mais um presente ao poeta pelo aniversário de 80 anos.

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2010 | 00h00

Os 17 poemas foram escolhidos pelo próprio Gullar e seguiram o critério de terem sido publicados apenas uma vez e dialogarem (involuntariamente) com a pintura de Bonfanti, um artista muito menos conhecido no Brasil (e em São Paulo) do que deveria ser, com influências da figuração expressiva de Iberê Camargo e Frank Auerbach, entre outros, e que já teve retrospectiva no Museu Nacional de Belas Artes e livro de arte publicado na França pela Acatos. O livro da dupla tem duas versões: uma em brochura para distribuição e a outra em capa dura, forrada de pano, acompanhada de caixas com alguns dos trabalhos reproduzidos no livro, que é voltada para colecionadores.

É fácil entender, vendo as imagens, por que Gullar escolheu poemas como o primeiro, Extravio, com versos como "estou disperso nas coisas", "estou desfeito nas nuvens" e "extraviei-me no tempo". Ou Bananas Podres 2, em que fala de "uma ciranda/ de rostos consumidos/ de olhares humanos entre trapos/ na poeira de fogo". Ou ainda Poemas Portugueses 5, quando diz: "eu colho a ausência que me queima as mãos". Sem se referir a um quadro de Bonfanti, essas expressões de Gullar - esses relâmpagos sempre ricos de memórias - são a mais perfeita tradução de sua pintura. Poucas vezes texto e imagem, talvez desde Murilo Mendes e Ismael Nery, combinaram tão bem na arte brasileira.

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