Os reis da praia

Lucrativo comércio na orla do Rio é tema da 5.ª série nacional da HBO

ALLINE DAUROIZ, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2012 | 03h09

A notícia de que o comércio nas praias do Rio, incluindo hotéis e restaurantes da orla, movimenta, segundo estimativa do Sebrae-RJ, impressionantes R$ 7 bilhões é de 2010, mas com a expectativa de Copa do Mundo e Olimpíada no País, o faturamento nas areias só tende a crescer. Em 2007, porém, o diretor Estevão Ciavatta, dono da produtora Pindorama Filmes (e marido de Regina Casé), ainda não tinha esse número em mente, quando a HBO propôs parceria e encomendou "uma série que se passasse nas praias do Rio". Mas, junto com os roteiristas Patricia Andrade e William Vorhees, ele não precisou ir longe para ver que o universo paralelo do comércio informal nas areias cariocas rendia uma boa trama.

Preamar, nova série da HBO que estreia hoje, às 21 horas, significa "a maré mais alta que há" e simboliza bem os altos e baixos do protagonista, o ex-magnata João Ricardo Velasco (Leonardo Franco). Morador de um dos metros quadrados mais caros do País, a Avenida Vieira Souto, em Ipanema, Velasco de repente se vê sem emprego e desacreditado no mercado, após uma aposta errada na Bolsa de Valores. Envergonhado, ele esconde a falência da família: a mulher Maria Isabel (Paloma Rianl), que se ocupa de fazer cursos de ioga e pintura; a filha Manu (Jessika Alves), adolescente doce e em crise com mãe; e o filho Fred (Hugo Bonemer, primo de William Bonner), universitário que passa o dia na praia e a noite em festas, onde vende ecstasy e recruta as amigas para fazer programas com clientes ilustres - entre elas está Paula, vivida por Karen Junqueira que, enfim, interpreta uma garota de programa, depois de perder o papel de Bruna Surfistinha no cinema para Deborah Secco.

"O nome Preamar também remete à ideia de quem manda no Rio é o mar", explica Ciavatta - que neste projeto atua como criador, roteirista, diretor de episódios, diretor-geral e produtor executivo -, em conversa por telefone com o Estado. "No primeiro episódio, inclusive, tem muitos tempos de observação, sol nascendo, lua cheia, o Velasco olhando um pássaro e percebendo sua relação com a natureza, algo quase místico."

Isso explica o ritmo lento e contemplativo do episódio de estreia, com um protagonista introspectivo e angustiado, que demora a dizer a que veio.

É no segundo episódio que a história ganha fôlego. Sem saber o que fazer para manter seu padrão de vida e prestes a se jogar da janela de sua cobertura, Velasco percebe o grande mercado em frente à sua casa e sai em busca de Xerife (Roberto Bonfim), o mandachuva das barracas de Ipanema, para propor sociedade e ideias de "upgrade" nos negócios. Só então se descortina o universo dos barraqueiros e ambulantes nos depósitos para pegar mercadoria, dos surfistas, turistas, garotas de programa e catadores de latinha, misturados nas democráticas areias do Rio.

"Queríamos mostrar esse Brasil misturado que tanto se fala por aí. Na praia tem isso: favelados e milionários se relacionando", explica Ciavatta.

Diretor da primeira safra do Esquenta!, programa que Regina Casé apresenta com sucesso na Globo, Ciavatta faz um paralelo entre as duas atrações. "No Esquenta!, naquele palco 360º, tentamos fazer um olhar 360º do Brasil - o que também tento fazer em Preamar: um olhar menos preconceituoso, sem julgamento, não no sentido politicamente correto, mas no sentido de que conheço ou já tive contato com cada um dos personagens da série e reconheço neles alguma humanidade."

Padrão HBO. Feita para agradar o mercado latino-americano, a trama tem personagens e paisagens muito cariocas. Entretanto, Ciavatta garante que está lidando com temas universais.

"Além da paisagem do Rio ser mundial, temos muito drama familiar e humor politicamente incorreto na série. E acho que o cenário do mercado financeiro, onde o Velasco trabalhava, o tipo de relação entre as pessoas e as crises nesse ambiente, são muito up to date", diz.

Seguindo o padrão HBO de qualidade, a série - 8.ª trama latino-americana do canal e 5.ª série original brasileira (após Mandrake, Filhos do Carnaval, Alice e Mulher de Fases) - precisou de dois anos só para ter seu roteiro finalizado e de 26 semanas de gravação para os 13 episódios que constituem a primeira temporada.

O investimento também foi alto: R$ 14,76 milhões (com dinheiro captado por leis de incentivo), o que dá cerca de R$ 1,1 milhão por episódios (um capítulo de novela das 9 custa de R$ 250 mil a R$ 500 mil).

"Parece muito dinheiro e, de fato, é uma superprodução. Mas, em termos de produção, foi como fazer sete longas de baixo orçamento. Tudo contado na ponta do lápis", garante Ciavatta, que alfineta: "Com essa nova lei da TV paga (que espera regulamentação e prevê cotas para produção nacional na TV fechada), só espero que a TV paga melhores seus orçamentos. É meio ridículo, por exemplo, querer pagar R$ 50 mil ou R$ 70 mil por um projeto de ficção. Pra fazer televisão séria, que é o que a Globo e a HBO fazem, não tem jeito: precisa ter dinheiro."

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