Os reis da comédia

Vai Que Dá Certo reúne nova geração de comediantes na esteira de filmes brasileiros que apostam no humor para conquistar boas bilheterias

Entrevista com

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

21 de março de 2013 | 02h10

Vai que dá certo - além de dar título à comédia de Maurício Farias que estreia hoje, a sentença bem que poderia virar um lema de todo filme brasileiro. A esperança é sempre essa - de que tudo dê certo, nas bilheteria também (ou principalmente). Há um boom das comédias. Elas proliferam de todos os lados, e de todos os estilos, das mais inocentes às mais grosseiras. Os dramas dão mais prestígio, mas o que o público quer é rir. Vai Que Dá Certo é uma comédia de erros. Cinco amigos tomam consciência do buraco em que estão e planejam um assalto, mas são ineptos. Enrolados com a polícia e o crime, o que eles fazem? Lutam para sobreviver.

Embora o assalto à caixa-forte seja o ponto de partida de Vai Que Dá Certo, o diretor Farias diz que o tema de seu filme não é a crítica à injustiça do pensamento capitalista. Ele espera que o público, rindo, perceba que o nó górdio é uma questão ética - até onde se pode ir, individualmente, num mundo assolado por crises econômicas e denúncias de corrupção? Fazer rir, mas com a contrapartida de um pensamento crítico por trás, é uma coisa que Farias tem feito na TV, com as séries A Grande Família e, agora, Tapas e Beijos, ambas estreladas, ou coestreladas, por sua mulher, Andréa Beltrão. Para fazer rir, ele chamou um time eclético de comediantes da nova geração. São os novos reis do humor. Bruno Mazzeo está montado em cerca de 10 milhões de espectadores, o público que já somou com Muita Calma Nessa Hora, Cilada.com e E Aí, Comeu?. E tem também Fábio Porchat, Lúcio Mauro Filho e Danton Mello, que não é bem um comediante, mas está comediante em Vai Que Dá Certo.

As origens são diversas - stand up, teatro, TV. Bruno Mazzeo, além de escrever esquetes para os programas de humor do pai - Chico Anísio -, foi locutor esportivo lá no seu começo. Ele mantém até hoje o vozeirão, que você percebe muito mais quando conversa com Bruno, o ator, não quando o vê na pele de seus personagens. Vai Que Dá Certo foi filmado parte em Paulínia, parte em Campinas. O diretor não queria caracterizar a cidade. Preferia que seu filme desse a impressão de passar em qualquer cidade do Brasil. Bruno conta que inventou um sotaque para o personagem rapidinho - "em cinco minutos" -, mas isso não foi difícil porque viveu em São Paulo e o Estado e a cidade são cacofonias de sotaques. No geral - ele minimiza o aporte de sua voz -, diz que não é como o pai, que fazia da dicção e da fala ferramentas na criação de seus tipos sempre engraçados. Quem não minimiza é Fábio Porchat, que soma os créditos de roteirista e 'dialoguista' ao de ator.

"Quando comecei a trabalhar no projeto, Maurício (Farias) já havia montado o elenco. Comecei a escrever pensando nos atores, na embocadura deles. Quando a gente faz isso, o personagem ganha vida, uma forma, uma cara. E tudo fica mais fácil." Porchat sabe do que está falando porque, afinal de contas, além da stand up, ele estourou na internet, com o sucesso de Porta dos Fundos, que contabiliza 140 milhões - é isso mesmo, 140 milhões - no YouTube. Gregório Duvivier, que também está no elenco de Vai Que Dá Certo, e ele criaram o projeto de vídeos para internet que virou o maior sucesso. Mais de uma emissora já tem batido à porta dos dois (sem trocadilho) para incorporar os vídeos à sua programação. Nada feito. Cada humor com seu formato, a sua mídia.

Os críticos, às vezes, pensam que é fácil fazer comédia. Basta pegar um marombado ou um tonto, uma gostosa, encenar piadas grosseiras de sexo e... Bum! O público vai lotar as salas. Antes fosse simples assim. A comédia, como o blockbuster, é um gênero difícil e para a comédia virar blockbuster é preciso muito esforço. Sobre isso, todos podem falar, porque Bruno, Fábio, Lúcio Mauro e Danton, mais do que comediantes, se consideram a-to-res. Pegue o irmão de Selton Mello. Danton veio do teatro infantil (como Lúcio Mauro, que agora faz o Leão Covarde na montagem teatral de O Mágico de Oz). Foi, e ainda é, galã de novela e agora se integra ao grupo de desastrados de Vai Que Dá Certo. "A gente faz o que gosta, mas também o que é preciso", diz.

É uma geração talentosa - e eclética. "Todo mundo é muito autoral e não esnoba nada, seja teatro, cinema, TV ou internet", define Fábio Porchat. "É uma geração que encerrou essa coisa dos limites do humor", acrescenta Bruno Mazzeo. "Prova disso é que todo mundo faz humor politicamente incorreto, mas não toma processo porque faz com inteligência." E todos têm trabalhado muito. Demais? Quando se é workaholic, nunca é demais. Porchat admite que, às vezes, se sente um desses caras que equilibram pratos. "Faço um monte de coisas ao mesmo tempo, tenho sempre dez projetos em andamento e o importante é não deixar o prato cair." Agora mesmo, ele tem uma comédia pronta - Concurso Público - para estrear em junho e outra que ainda deve filmar - Meu Passado me Condena - para sair em novembro. "O filme vai se passar dentro de um navio, durante um cruzeiro para a Itália", antecipa.

Lúcio Mauro Filho não tem aqueles olhos esbugalhados, que são muito mais um recurso humorístico de que se vale, e com eficiência. É outro que tem trabalhado até demais. "Segunda, terça e quarta gravo A Grande Família, sexta, sábado e domingo faço o musical, que ainda tem duas sessões no fim de semana. Sobra só um dia para mim, mas não me queixo. Isso é só uma fase, e embora seja cansativo é também gratificante." Essa questão da gratificação é muito importante. O carinho do público, o fazer o que se gosta contam muito. "É muito interessante quando no fim do mês ainda ganho por tudo o que gosto de fazer", diz Porchat. Com esse espírito lúdico, aumentam as chances de dar certo.

Como surgiu o Vai Que

Dá Certo?

A origem é uma história real que ouvi na Globo, há muito tempo, quando dirigia minha primeira novela. Um motorista particular enrolado num assalto. Cada vez que pensava na história, ela ficava mais complexa, porque entravam as circunstâncias de momento. O próprio elenco mudou com o tempo. Quando formatei o elenco com que filmei, a aposta estava lançada e só restava esperar que desse certo.

Você faz humor na TV - A Grande Família, Tapas e Beijos. No cinema, é mais eclético. A Grande Família e Verônica. Qual foi aqui sua maior dificuldade?

Não queria que fosse só mais uma comédia. Os caras tão na m..., vão se enrolando cada vez mais e eu não queria que o espectador simplesmente aceitasse numa boa. Há uma questão ética de fundo que, espero, o público perceba. Mas a dificuldade também foi trabalhar nos limites da tensão e do humor. Até onde ser engraçado? Fui apertando as duas pontas.

Seu filme tem cara de comédia italiana. Me lembrou a série dos Homens de Ouro, de Marco

Vicário. Conhece?

O nome não me é estranho, mas não. Em contrapartida, pedi ao elenco que visse Quinteto Irreverente, de Mario

Monicelli. / L.C.M.

Crítica: Luiz Carlos Merten

JJJJ ÓTIMO

JJ REGULAR

Embora a maior bilheteria do cinema brasileiro tenha o pé afundado na realidade, com o poderoso drama de Tropa de Elite 2, de José Padilha, há um boom da comédia que não cessa de repercutir (e aumentar). As comédias são múltiplas - fantasiosas, inocentes, grosseiras. Há para todos os gostos. Sucedem-se os reis do humor - Bruno Mazzeo, Leandro Hassum, Fábio Porchat, a lista não para de crescer. Rainha, só uma, Ingrid Guimarães.

Na entrevista ao lado, Maurício Farias diz esperar que Vai Que Dá Certo não seja só mais uma comédia. A história, com o pé na realidade, mostra um quinteto de perdedores que tenta realizar o assalto perfeito, mas tropeça nos erros mais básicos. Farias acrescenta que há uma questão de fundo no relato, e ela é de ordem ética. Boa parte da crítica deve se arrepiar diante da simples sugestão de que isso possa estar ocorrendo. Com um diretor 'global' (A Grande Família, Tapas e Beijos) e um elenco popular, com muita gente da Globo, é impossível para a maioria sequer imaginar que a estreia de hoje possa ter algum conteúdo crítico.

Como boa parte das comédias brasileiras recentes, Vai Que Dá Certo é melhor em partes do que no todo. O elenco é bom, mas nem todo mundo tem a mesma chance. A 'fórmula' não é novidade. De John Huston a Stanley Kubrick e Jules Dassin, os norte-americanos fizeram muitos filmes sérios sobre assalto perfeito. Dassin mudou o tom - e de Rififi a Topkapi, o assalto, como a carreira do diretor, tomou outro rumo. Os italianos investiram na paródia e a série dos Sete Homens de Ouro, de Marco Vicario, com a mulher dele, Rossana Podestà, execrada nos anos 1970, ganhou status de cult com o tempo. Maurício Farias jura que Vicario não foi uma inspiração. Mario Monicelli, com seu Quinteto Irreverente, sim, mas claro que Vai Que Dá Certo não é nenhum Meus Caros Amigos. Dá para rir, um pouco.

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