Os quadrantes de Giannotti

Livro sobre o pintor destaca sua produção recente em que a fotografia é um meio de investigação

Camila Molina, O Estado de S.Paulo

11 de março de 2011 | 00h00

"O tempo da pintura tem de ser respeitado", diz com convicção o pintor paulistano Marco Giannotti. Curioso que recentemente ele tenha se lançado a novos caminhos dentro do seu repertório de questões, usando, agora, a fotografia como uma fonte de sua investigação. "Não quero me ver como fotógrafo - é o olhar pictórico que se transpõe para a linguagem", afirma o artista, que lança amanhã, a partir das 11 horas, no Gabinete de Arte Raquel Arnaud, o livro Marco Giannotti (Dardo, 112 págs., R$ 40) justamente sobre o momento atual de sua trajetória, que ele considera ser o de um "processo de maturação". O volume destaca sua produção, principalmente, de 2009 até agora.

A fotografia tem um papel interessante nas recentes criações do artista, a percepção da "luz impregnada nos materiais, em tensão", mas, inexoravelmente, é a pintura o campo de excelência de Giannotti em mais de 20 anos de carreira. Sendo assim, tão bem define no título de seu texto para o novo livro sobre o pintor o crítico Ronaldo Brito - Um Olhar Lento, Outro Fluido -, revelando uma equação intrínseca e natural na pesquisa atual de Giannotti, que resultou na série de pintura Quadrantes. "Essas obras começaram quase como um diário, numa tentativa de aproximação e ampliação do contato com o mundo, de sair de uma linguagem árida em que estava minha pintura, de indagação", diz o pintor, completando, ainda, que é papel do artista "fazer a crítica da imagem".

Giannotti, enfim, trabalhou com a riqueza de lidar com duas "temporalidades" diferentes, a da fotografia e a da pintura, mas guardando ao pictórico a sua primazia - não existe um movimento de hibridização dos meios, vale ressaltar. Dessa maneira, na inclusão literal do mundo em suas pinturas realizadas com têmpera, óleo e até spray, Quadrantes, iniciada em 2010, revela elementos "orgânicos" como galhos dentro de composições que, como diz o título da série, são estruturadas por quadrados como divisórias e ainda têm "imbricadas" tramas que são a transposição direta da imagem de grades - as de arame, em losangos - vindas de conjunto de trabalhos anteriores do artista que ele apresentou na mostra Contraluz, em 2009, no Gabinete Raquel Arnaud. As telas de Quadrantes, que se referem ainda à "paisagem clássica" - ou janelas -, se estruturam no jogo entre o figurativo e o abstrato.

Mais ainda, luz e cor - de uma paleta predileta de tons mais "terrosos e profundos" e ainda de vermelhos, azuis esverdeados e o negro - não poderiam deixar de ser fundamentais nas composições que são feitas de camadas sobrepostas. "A riqueza de sua pintura radica-se precisamente no modo como consegue temperar formas e cores a partir do racional sem deixar escapar esse lugar poético que nasce de cada percepção única do espaço e de como o tempo se estende como pintura expandida, fissura na percepção", escreve David Barro no texto O Abismo de Um Tempo Expandido, que abre a publicação (trilíngue - português/espanhol/inglês) sobre o artista.

Apenas para a ocasião do lançamento do livro, amanhã, Marco Giannotti exibe na galeria - que, ainda este mês, muda de endereço - uma grande seleção de pinturas, desenhos e fotografias revelando seu processo recente, de desde 2009 até 2011.

Japão. No fim do mês, Marco Giannotti parte para o Japão, onde ficará por um ano como professor-visitante da Universidade de Kyoto devido a convênio da instituição com a Universidade de São Paulo (USP), em que o artista leciona. Como conta o pintor, a fotografia vai ser um meio importante nessa experiência no Oriente. "Estou interessado em fotografar o diálogo entre a arquitetura, dos templos e a moderna também, com as estações do ano."

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