Hélvio Romero/AE
Hélvio Romero/AE

Os pilares da arte em Portinari

'Guerra e Paz', a célebre obra do pintor de Brodowski (SP), é restaurada e vista pela primeira vez em exposição no Memorial

Laura Greenhalgh - O Estado de S.Paulo,

05 de fevereiro de 2012 | 07h00

Há obras de arte que ultrapassam a técnica, a estética, o julgamento crítico, para ganhar uma vida. Mais: ganham uma espécie de destino, essa ideia tão difusa e colada aos mortais. Por mais de meio século, os grandes painéis Guerra e Paz, do pintor paulista Candido Portinari (1903-1962), cumpriram dupla função: capturar o olhar de quem cruza a entrada dos delegados das Nações Unidas, no prédio da organização, em Nova York, e ali mesmo fazer soar algo como os sinos da consciência, lembrando que estreitos são os limites entre a barbárie e a dignidade humana. Pois estes painéis, feitos a óleo sobre madeira compensada, continuariam por tempo indefinido no mesmo hall não fosse a conjunção de fatores, pessoas e acasos que hoje explica a inauguração de um aguardado evento artístico do ano: a partir de amanhã, a mais famosa obra de Portinari, recém-saída da restauração, será vista pela primeira vez numa megaexposição montada no Memorial da América Latina, em São Paulo.

No fim de dezembro de 2010, e por apenas duas semanas, os painéis vindos de Nova York ficaram expostos no Teatro Municipal do Rio, sendo apreciados por mais de 44 mil pessoas antes de recolhidos ao Palácio Capanema, para um restauro que durou quatro meses. A exibição no teatro, embora de curta duração, impressionou: as filas serpentearam o prédio, o público tinha todas as idades e todos os sotaques. Deu-se ali uma espécie de revanche histórica: quando os dois painéis, de aproximadamente 14 m x 10 m cada um, estavam prestes a embarcar para os Estados Unidos, em 1956, foram exibidos pela primeira e única vez no mesmo teatro carioca. E então se foram. Num jornal carioca, o cronista impiedoso sentenciou: "Agora, para vê-los, só indo a Nova York". Mais de meio século depois, não só os painéis retornaram ao Rio, como permanecerão em São Paulo até 21 de abril.

Com concepção cênica de Daniela Thomas, a exibição paulista vai além da exposição da obra, remontada no Salão dos Atos do Memorial - que normalmente abriga o Painel Tiradentes, pintado por Portinari em 1948/49 e agora recolhido para dar lugar a Guerra e Paz. O público também poderá assistir à projeção de três filmes, entre eles um making of dirigido por Carla Camurati registrando desde a desmontagem no saguão da ONU em 2010 até o momento; uma exibição de imagens em alta definição da obra do pintor de Brodowski (SP) classificada no catálogo raisonné organizado por seu filho único, o matemático e engenheiro João Candido Portinari (calcula-se em 7 horas o tempo necessário para ver todo esse material); e uma preciosa mostra de 90 estudos preparatórios dos dois painéis. São desenhos a lápis, aquarelas, trabalhos a óleo, técnicas mistas, acervo jamais reunido. E reunir Portinari não é fácil: 95% de sua obra, feita num ritmo de produção digno de Van Gogh, encontra-se em mãos de particulares dentro e fora do País.

"Há anos trabalhávamos a ideia de trazer Guerra e Paz ao Brasil", conta João Candido ao Caderno 2. "Em 2002, às vésperas do centenário de nascimento de Portinari, solicitei a vinda dos painéis e dei com portas fechadas nos EUA. Em 2007, no cinquentenário da obra, graças à ajuda do governo brasileiro consegui a promessa de que, durante o período de reforma do prédio da ONU, iniciada em 2010, os painéis poderiam ser retirados e finalmente voltar ao País." Por ajuda do governo brasileiro, entenda-se Luiz Inácio Lula da Silva. O então presidente adotou a ideia do filho do pintor: no discurso de abertura da Assembleia Geral da ONU em 2007 fez uma longa reverência aos painéis, agraciou o secretário-geral Ban Ki-Moon com um livro sobre Guerra e Paz e ainda posou para fotos ao lado do coreano brincando com as bandeiras do Brasil e da ONU, tudo no estilo Lula. "O que eu posso dizer é o seguinte: sou grato a ele. Nunca um presidente fez tanto pelo retorno de Guerra e Paz ao Brasil."

A obra e seu destino guardam muitas histórias mais. Em 1950, o então secretário-geral das Nações Unidas Trygve Lie, um norueguês, emplacou a ideia de cada nação membro doar à organização um "presente cultural" que seria exposto em caráter permanente no edifício-sede, ainda em construção - edifício projetado por Le Corbusier, com a colaboração do brasileiro Oscar Niemeyer. Dois artistas foram cogitados pelo Brasil, o escultor Victor Brecheret, nome de proa do modernismo, e o pintor Candido Portinari, saído da escola acadêmica, mas que já desenvolvera caminho próprio, reconhecido internacionalmente. A decisão sobre o artista coube ao Itamaraty. A escolha do tema veio da ONU. De 1952, quando lhe chegou a encomenda, a 1956, ao finalizar a pintura, Portinari se dedicou obstinadamente aos painéis. Produziu cerca de 180 estudos em paralelo a um trabalho muralístico meio solitário, só dividido com os pintores Enrico Bianco, Rosalina Leão e uma assistente bem jovem à época, Maria Luiza. Bianco, hoje aos 93 anos, dizia que Portinari era "um homem de enxada na mão".

Consta que Portinari gostaria de ter pintado os painéis na própria ONU, mas em pleno macarthismo e caça às bruxas nos Estados Unidos, não seria possível validar a permanência de um artista filiado ao Partido Comunista no Brasil. À falta de um ateliê capaz de abrigar a monumentalidade da encomenda, a solução inesperada veio de Assis Chateaubriand, fundador dos Diários Associados: o jornalista apoiador das artes cederia um galpão com teto de zinco nos estúdios da TV Tupi no Rio. "Ficava no bairro de Botafogo, Rua Paulino Fernandes. Ali meu pai enfrentou dias de calor insuportável. Pintava horas seguidas, à base de muita limonada", relembra João Candido, que nos anos 70 abandonou as ciências exatas para se dedicar à preservação da obra paterna. A intoxicação pelas tintas, que viria matar Portinari, deu sinais naquele período. Mas não foi este o motivo da ausência do artista na inauguração dos painéis, considerados a obra mais importante do acervo da ONU. Sentindo na pele o clima político, queria ser convidado formalmente pela instituição ou pelo governo americano. Não iria com visto de turista. E nada de convite. Deu-se uma cerimônia fria, sem a presença de artistas, sem críticos de arte, apenas testemunhada pelos delegados da casa e membros do corpo diplomático brasileiro.

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