Os pequenos apocalipses da juventude

Blow-Up, de Antonioni, inspirado em narrativa cortazariana, teve destaque no caderno por sua vocação 'terrivelmente moderna'

Antônio Lima, O Estado de S.Paulo

09 de outubro de 2010 | 00h00

Cannes, 1960: na confusão de um festival que termina, um homem de 48 anos tem uma decepção. Seu filme, A Aventura, perdera a Palma de Ouro, um grande troféu inventado para dizer ao publico que um cineasta é um gênio. Em meio à amargura, uma satisfação: outro italiano, Frederico Fellini, com A Doce Vida, ganhara a cobiçada Palma. Nos planos de Michelangelo Antonioni, o cineasta não premiado, a Palma era apenas uma questão de tempo. Êle estava mais preocupado em continuar sua trilogia sôbre o tédio e a solidão do homem moderno. Além disso, o juri, concedeu-lhe o prêmio especial, criara a imagem sincera sôbre seu filme. A Aventura, concordariam todos os críticos mais tarde, contribuiu para equiparar o cinema à literatura, acabando com uma discussão que já se tornava cansativa.

Em abril, 1967, Antonioni tinha um trunfo para conquistar Cannes. Já havia terminado sua trilogia, dera sua contribuição à evolução da linguagem do cinema. Podia, portanto, satisfazer o mundanismo do Festival. Blow-up (Depois daquêle Beijo), saiu de Cannes com a Palma de Ouro, aplausos da crítica e a previsão de uma excelente carreira comercial.

Por que os aplausos da crítica? Com a palavra um francês, Michel Delahaye: com Blow-up, Antonioni continua sendo Antonioni.

Para fazer Blow-up, Michelangelo Antonioni, italiano nascido em Ferrara, em 1912, um dos maiores cineastas contemporâneos, contou com o apoio de Carlo Ponti, o maior produtor italiano e da Metro, uma das maiores produtoras do mundo. Filmou em Londres, com total independência e os recursos que, como cineasta independente, jamais conseguiu. (...)

Blow-up é baseado num conto de Julio Cortazar, de 53 anos, um dos mais traduzidos e comentados autores argentinos contemporaneos. O conto Las Babas del Diablo está no livro El perseguidor y outros cuentos. Julio Cortazar usa o elemento fantástico, seu conto está escrito em linguagem coloquial, é deliciosamente irônico. Conta como Michel, franco-chileno, tradutor e fotógrafo amador, sai de seu apartamento, no quinto andar do numero 11 da rua Monsieur-le-Prince, num domingo, 7 de novembro. Dá umas voltas às margens do Sena e chega ao cais, na ilha Saint Louis. É nesse local que tudo acontece. Michel vê um casal abraçado. A mulher, alta, esbelta, dominadora, tenta conquistar um rapaz indefeso, que parece resistir à sedução. Ela nota a presença de Michel que continua fotografando. (...)

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