Os papéis de Klaus Kinski no cinema

Foi na França, em 1968, que começou o culto a Klaus Kinski. Ele já havia feito pequenas participações em filmes de Helmut Kautner e Douglas Sirk nos anos 50, de David Lean e Sergio Leone nos 60. Ludwig II, Tempo para Amar Tempo para Morrer, Doutor Jivago e Por um Punhado de Dólares o tornaram conhecido mas não famoso. E aí veio o spaghetti western O Vingador Silencioso, de Sergio Corbucci. Os críticos franceses deliraram. Quatro anos mais tarde Aguirre, a Cólera dos Deuses marcou o encontro com Werner Herzog. O resto é história.O encontro na tela, pois os dois já haviam dividido um quarto na juventude. Reencontraram-se, um como diretor, o outro como ator. Klaus Kinski, que nasceu Niklaus Nakszynski, de pais alemães, na Polônia, em 1926, descobriu sua vocação ao ser feito prisioneiro, durante a 2ª Guerra. Fazia mímica para divertir os outros presos. Com o fim da guerra, decidiu se tornar ator, mas largou a carreira para uma vida de vagabundagem, com o pé na estrada. Voltou a ser ator no começo dos 50.Seu tipo físico particular - magro, o rosto encovado, o olhar fixo, os gestos alucinados - parecia condená-lo aos papéis de coadjuvante. Loucos, gângsteres, prisioneiros. A fama de louco na tela tinha ressonância na vida, pois Kinski realmente esteve internado num instituto psiquiátrico. Basta citar o belo filme de Laís Bodanzky, Bicho de Sete Cabeças, para que você lembre como uma internação pode ser discriminatória, marcando uma pessoa - para ela mesma e os outros e Kinski nunca mais voltou à direção.Ocorre alguma coisa quando Herzog reencontra o amigo da juventude e faz de Kinski, como Aguirre, a Cólera dos Deuses. Herzog já era um diretor de filmes estranhos: Sinais de Vida, Também os Anões Começaram Pequenos, Terra do Silêncio e da Escuridão. E então as imagens do rio em Aguirre, a selva, tudo contribuiu para o impacto que fez dele, segundo François Truffaut, o maior diretor do mundo. O filme não seria a mesma coisa sem Kinski. Fizeram mais quatro filmes juntos: Nosferatu, o Vampiro da Noite, Woyzek, Fitzcarraldo e Cobra Verde.Kinski materializou na tela os personagens desmesurados que saíam da cabeça do diretor. Foi seu alter ego. Formavam uma dupla perfeita - como John Ford e John Wayne, Federico Fellini e Marcello Mastroianni. Não foi uma relação fácil. No documentário Meu Melhor Inimigo, Herzog se voltou para Kinski um pouco para lembrar o quanto eles foram bons, mas também para expor uma relação continuamente marcada pela tensão.Brigavam, certa vez trocaram tiros, mas para criar os loucos, os alucinados de Herzog - aventureiros em busca do Eldorado, vampiros em busca de sangue (e amor), um amante de ópera em busca de um sonho - só mesmo Klaus Kinski. A parceria sedimentou o mito. O resto ficou por conta do comportamento extravagante do ator. Em 1989, publicou sua biografia, Tudo o Que Eu Necessito É Amor. Lembrou a infância pobre, as relações incestuosas com a mãe e a irmã e sugeriu que foi amante da própria filha, Nastassia Kinski. Ela não só desmentiu como, indignada, rompeu com o pai.Kinski morreu em 1991, aos 65 anos. Nos necrológios, foi definido como o ´Marlon Brando feio´. Podia ser feio, mas aqueles olhos azuis, expressando a loucura, fazem parte da história do cinema. Ele gostava de dizer que recusou papéis em filmes de Federico Fellini, Luchino Visconti e Pier-Paolo Pasolini. Estreou na direção em 1988. O narcisismo o levou a chamar o filme de Kinski Paganini. Mas a produção sobre o célebre maestro foi considerada um fracasso.

Agencia Estado,

17 de outubro de 2001 | 19h45

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