OS OLHOS DE ZOLA

Em apresentação no Clash Club, na quinta, cantora mostrou influências de Nico e Diamanda Galás

O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2012 | 03h07

A cidade estava submersa, e um iceberg emergiu da água na Barra Funda. Era a gélida cantora norte-americana Zola Jesus, mulher cujo sorriso é tão difícil de localizar quanto a coragem do Capitão Schettino.

É como se ela fosse uma Nina Hagen ou uma Siouxsie pós-apocalíptica - o mundo acabou, não sobrou banda, então ela veio só com um piloto de laptop e um prato de bateria que ela castiga de vez em quando, com uma baqueta. Zola tem um rosto aquilino e é charmosa, e sua música é melodramática, grave, solene - por vezes, é meio tediosa.

Zola Jesus não é gótica, embora o clima de funeral de seu show e o som algo tétrico de canções como Night possam eventualmente sugerir isso. Tem uma leitura extrema da figura humana na modernidade, uma coisa fatalista. A batida ao estilo Joy Division de Vessel pediria até um Clash Club mais escurinho na noite de quinta-feira, estava claro demais. Sea Talk soa como Disintegration, do Cure ("Did you understand i don't have a choice?"), mas é difícil saber se há, na voz de Zola, dramaticidade equivalente à de Robert Smith. Ela parece por demais dissolvida naquele mundo sintético, e a reiteração de um lamento só pode ser eficiente se ele nos despertar alguma ternura. O que mais chama a atenção são os olhos frios de Zola - o que será que ela está pensando enquanto canta isso?

De origem russa, Nika Roza Danilova nasceu em Phoenix, no Arizona, cidade cercada pelo deserto, e tem apenas 23 anos e grande bravura. Toda sua música se escora num estado de tensão permanente e seu universo parte mais de referências como Nico, do Velvet Underground. "Certamente, ela não segue Lady Gaga no Twitter", escreveu um fã. É bem mais ousado o seu synthpop, cuja pretensão é se juntar ao universo de sombras de uma Diamanda Galás e da ópera. Um veneno contra a coreografia ensaiada do R&B de TV.

Nesse ponto, Zola Jesus é vitoriosa. Dança como um xamã dopado, numa névoa espessa, e martela seu prato de bateria enquanto canta. O conceito do show poderia ilustrar a tendência de o homem entrar dentro da máquina e humanizá-la, mas às vezes parecia que a máquina é que tinha tomado conta da mulher. Quem viver, verá.

Crítica: Jotabê Medeiros

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