Os olhos bem abertos de Haim Tabakman

Os olhos bem abertos de Haim Tabakman

Diretor israelense fala de Pecado da Carne, seu longa sobre homossexualismo na comunidade ortodoxa

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2010 | 00h00

Havia espectadores torcendo para que Eyes Wide Open ganhasse o prêmio da mostra Un Certain Regard, no Festival de Cannes de 2009. O longa do isaraelense Haim Tabakman não foi premiado, mas virou cult pela ousadia de seus temas e da própria realização. O título traduzido poderia ser De Olhos bem Abertos, em oposição a Eyes Wide Shut, De Olhos bem Fechados, o último Stanley Kubrick, mas é como Pecado da Carne que o filme de Tabakman estreia na cidade, depois de fazer sucesso no Mix Brasil. De Israel, conversando pelo telefone, o diretor nega que seu filme seja bandeira em defesa da diversidade sexual.

O espectador brasileiro conhece Kadosh, de Amos Gitai, que discute a sexualidade feminina na comunidade ortodoxa judaica. A barra é mais pesada quando se trata de homossexualismo, como no seu filme, ou não?

Os ortodoxos são muito fechados, mas há um aspecto curioso que pouca gente sabe, fora de Israel. Os homens estão proibidos de filmar e até de assistir a filmes, mas as mulheres, não. Existem mulheres cineastas ortodoxas e elas próprias falam de sexualidade. Em relação ao homossexualismo, não se pode nem dizer que sejam homofóbicos. Os ortodoxos não reconhecem o homossexualismo. Para eles, não existe o problema porque o homossexualismo não existe, é tudo.

É muito interessante como você trabalha o espaço para mostrar a aproximação progressiva entre Zohar e Ezri, o açougueiro respeitado e o aprendiz que desestabiliza sua vida. Como você trabalhou o roteiro e, depois, a mise-en-scène?

O roteiro havia sido escrito por Merav Doster há sete anos. Foi um projeto difícil de concretizar e tive tempo de pensar muito no filme que queria fazer, e como queria fazer. Mudei muita coisa durante a filmagem, que foi uma espécie de guerrilha. Nas externas, chegávamos ao set, uma equipe reduzida, definíamos o plano e filmávamos rapidamente. Mas houve elaboração, sim. No açougue, o balcão vira metáfora da barreira invisível entre os personagens. Só quando saem de Mea Sharim, o bairro ortodoxo de Jerusalém, Zohar e Ezri começam a se aproximar. A cena-chave é aquela em que eles retiram os chapéus e os colocam sobre pedras ao lado de cada um. O toque só ocorre num banho ritual, no sótão do açougue.

Por que os planos sequência nas cenas de sexo?

Prefiro dizer, de amor. Quando os dois homens ortodoxos de barba se tocam, imagino que o público possa experimentar um estranhamento, mas quando a cena prossegue dá para sentir a beleza do sentimento que nasce. Em todo o mundo, Pecado da Carne teve boas críticas, menos em Israel. Tem gente que acha que fiz o filme para ser uma bandeira. Fiz pelos personagens, por sua dignidade e humanidade.

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