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Ignácio de Loyola Brandão
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Os óculos de Günter Grass serviram para Juan Rulfo

Grass, Galeano. Dois escritores com G. Dois poderosos, cada um à sua maneira. Nos identificávamos mais com Galeano, estava perto, levantava nossos problemas. Mas também Grass era chegado pela relevância dos problemas que levantou, a herança do nazismo, as ideologias fortes, a nova Alemanha, a perplexidade do século 20. Há autores que nos dão prazer não somente pelas ideias que suscitam, mas pela maneira de escrever. Ao ler Galeano e Grass, tão diferentes, tão semelhantes, aprendemos e invejamos. Nos último dias, li depoimentos diversos, cada um tendo a sua lembrança de um ou de muitos momentos de convivência. Instantes que ficaram na memória como uma breve iluminação.

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S. Paulo

17 de abril de 2015 | 07h37

Ao contrário de Eric Nepomuceno, que sempre navegou fartamente nos mares da literatura latino-americana, como ensaísta ou tradutor, sendo amigo chegado, estive junto com Galeano uma única vez, em Roterdã, Holanda, em um Festival de Cinema e Literatura. Chegamos no mesmo horário, mas em voos diferentes e nos encontramos ao recolher a bagagem. Eduardo avançou em minha direção, largo sorriso, mão estendida, me abraçou. Eu, feliz. Galeano me conhecia. 

Minutos depois, Nelson Pereira dos Santos apareceu, Galeano olhou para mim, para ele, Nelson foi rápido: “Este é o Loyola. Vocês já se conheciam?”. Negamos os dois e rimos, ele me abraçou de novo. Depois, educado, foi assistir à minha mesa, ouvir a minha fala na apresentação de Memórias do Cárcere, o filme de Nelson Pereira, belamente adaptado de Graciliano Ramos. 

Galeano comentou que a presença de Heloisa, viúva do escritor, ali em Roterdã, tinha provocado nele estranhas emoções, ele olhava da tela para Heloisa, tentando adivinhar sentimentos. Na tela era Glória Pires, na sala, sentada próxima a ele, a figura real. O cinema para ele era também isso, eternizar momentos essenciais da história de um país, sem panfletarismo, sem demagogias, por meio de sentimentos. O humano dentro da história. Quase nos encontramos na recente Bienal do Livro de Brasília, a ele dedicada. Cheguei três dias depois de ele ter ido embora. Mas os imensos banners com suas fotos se espalhavam pelos extensos gramados.

Quanto a Grass, nos vimos três vezes. Uma delas, memorável. Deixo para o final. Nos anos 80, Berlim realizava anualmente um gigantesco festival, o Horizonte, dedicado a um país ou a um continente. Em 1982, foi homenageada a América Latina e mais de 300 autores, atores, dançarinos, músicos, diretores de cinema e teatro, pintores, ensaístas, fizeram da cidade um reduto onde só se ouvia português e espanhol. A abertura deveria ser feita por duas estrelas, García Márquez e Octavio Paz. Quando García Márquez soube que Paz estaria, declinou, não apareceu, avisou que preferia ir caçar com Mitterrand. Ao menos era o diz que diz que do momento.

Grass juntou em sua casa, numa rua transversal ao Kudam – então a principal avenida de Berlim Ocidental –, um grupo. Selecionou aqui e ali. Do Brasil éramos Darcy Ribeiro, João Ubaldo, Nélida Piñon, eu e Ute Hermanns, então aluna da Universidade Livre, especializada em cinema e literatura brasileira. Ute está hoje em Fortaleza, como leitora do Daad. O mistério foi o encontro entre Grass e Darcy. Todos sabiam que Darcy, homem culto e viajado, não falava língua nenhuma. E se entendeu com o colega alemão. 

Outro encontro foi na casa de Peter Schneider, escritor superconhecido, enfant gâté da nova literatura alemã, estrela, boa-praça, divertido. Grass estava presente, discutiam a situação dos escritores da Alemanha Oriental (RDA ou DDR) submetidos a forte censura, com a pressão constante da Stasi, a polícia política que oprimia, prendia, matava (ver o filme A Vida dos Outros, Das Leben der Anderen, de Florian Donnersmarck). Havia casos de escritores de renome que estavam sendo acusados de serem informantes da Stasi, o que era visto com cautela, uma vez que a própria polícia soltava boatos para destruir reputações. Grass, com voz potente, irado, vociferava. Eu, mal esboçando raras palavras, entendi pouco, Peter me levou para jantar, explicou o assunto. Disse: “Günter sempre está à frente de tais movimentos”.

A maior lembrança, cheia de ternura, aconteceu na Biblioteca Municipal (digamos assim) de Berlim durante o Horizonte, certa manhã. Corremos para conseguir lugar, as filas eram quilométricas. Nosso grupo: Ray-Güde Mertin, Berthold Zilly, Márcio de Souza, Sarita Brandt, Curt Meyer-Clason, Ute Hermanns, Carlos Azevedo, professor de literatura brasileira, Victor e Marta Klagsbrunn e o ensaísta alemão Hans Christoph Buch. Haveria uma leitura feita por Günter Grass e Juan Rulfo, dois gigantes. Rulfo era o mexicano que, com dois livros, O Planalto em Chamas e Pedro Páramo, deu os nortes de toda a literatura latino-americana (ou hispano-americana como preferem alguns). Grass estava com 55 anos e Rulfo com 65. Este morreria quatro anos mais tarde. Auditório superlotado, professores, escritores, estudantes, leitores, tiveram de colocar telões fora da sala. 

Rulfo, tímido, tranquilo, deveria ler em espanhol três contos dele. Günter Grass, imponente, vozeirão de tenor, leria os mesmos contos em alemão. Poucas vezes um autor teve um leitor maior, tão competente e entusiasmado. Nenhuma outra sessão do festival teve tanto público e tantos aplausos.

A sessão começou com uma saia-justa. Na hora de ler, Rulfo procurou os óculos e não encontrou. Inquieto, olhou em torno, olhou para alguns organizadores, parecia perdido. Balbuciou ao microfone:

Esqueci meus óculos. O que faço?

Os que entendiam espanhol riram. Os alemães riram em seguida, quando o intérprete traduziu. Günter Grass riu também, tirou os óculos e ofereceu:

Veja se o meu serve.

Rulfo testou, servia. A leitura começou e, a cada passagem, um passava os óculos ao outro. O outro devolvia e as transferências eram aplaudidas. Momento de tanta emoção e simplicidade só tive décadas depois na Flip, quando Amós Oz e Nadine Gordimer conversaram no palco, trocando ideias, discutindo, um dando espaço ao outro, humildes em sua grandeza. Em momentos assim, reconheço minha pequenez e me alegro com o ofício que abracei.

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