Os observadores passivos

"Oh uau. Oh uau. Oh uau." Essas foram as últimas palavras de Steve Jobs, o homem que foi um pioneiro da era digital e construiu um império multibilionário no processo. Jobs morreu em outubro passado, de câncer pancreático, aos 56 anos.

LEE SIEGEL, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2011 | 03h06

As últimas palavras de figuras momentosas tendem a resumir sua época. "Mais luz, mais luz", disse Goethe, tanto o romântico quintessencial quanto a figura exemplar do Iluminismo. "Não tenho o menor medo de morrer", disse Darwin oferecendo esperança ao número crescente de ateus que ele havia originado. E houve o pronunciamento derradeiro de Humphrey Bogart, ícone da virilidade e 'cabeça fresca' americanas: "Eu não devia ter mudado de Scotch para Martínis."

As palavras finais de Jobs remetem à época que ele criou e que cada vez mais pessoas habitam. No universo Apple, muitos de nós se tornaram espectadores passivos que meramente reagem ao mundo que nos cerca. Nós nos sentamos e assistimos. E precisamos reagir acriticamente. Caso contrário pareceremos monstruosidades azedas, mal humoradas, movidas a ego perto da suavidade zen dos dispositivos que Jobs nos entregou como miraculosas folhas e peixes.

A morte prematura de Jobs revelou um chocante paradoxo. De um lado, ele havia, quase sozinho, apagado a cultura a partir de personalidades que o precedera. A cultura baseada em engenhocas como as que ele criou - computadores desktop, laptops, iPhones, iPods, iPads - substituiu figuras maiores daquilo que entendemos como vida com autoridade amplamente reconhecida. Foram-se os Goethes, os Darwins, os Bogarts. Agora a multidão digitadora, "clicante", "blogueante", "linkante", "tuitante" expõe imediatamente a deficiência, ou o absurdo, ou a criminalidade, às vezes, de figuras de autoridade. A medida de excelência já não é o que o indivíduo pode alcançar. A medida de excelência é o que uma grande quantidade de indivíduos "conectados" pode conseguir quando eles ligam um computador e submergem num oceano cabeado de colaboração.

No entanto, se Jobs tornou obsoletas as personalidades emblemáticas, ele próprio se tornou a única verdadeira personalidade emblemática dos Estados Unidos. Se Jesus Cristo, ele próprio, voltasse à Terra, receberia uma breve explosão de tweets antes de todos desviarem suas atenções para a mais recente opinião política de Lady Gaga. Mas a imprensa americana elogiou Jobs como se ele tivesse sido Jesus Cristo. O resultado da cultura de anonimato da Apple foi o culto de personalidade da própria Apple.

Claro, o criticismo há de voltar algum dia. A promessa igualitária sustentada pela ascensão de grupos e multidões ainda não se materializou. Os ataques constantes a figuras de autoridade não produziram uma política melhor. Com compartilhamento de arquivos e downloads, iTunes e YouTube não originaram novas formas artísticas empolgantes.

Mas acabou de acontecer uma coisa nos Estados Unidos que, por um momento, me deixou grato pelo sucesso de Jobs em desmantelar a autoridade individual. O país ficou chocado com o indiciamento em 40 acusações de Jerry Sandusky, o treinador assistente do lendário time de futebol americano da Pennsylvania State University ("Penn State"), que foi formalmente acusado de abusar sexualmente de oito garotos num período de 14 anos. Pais e outras autoridades escolares se queixaram da conduta de Sandusky durante anos, mas a universidade acobertou tudo. Particularmente faltoso foi o treinador principal da equipe, Joe Paterno, que havia sido informado das alegações e não fez nada a respeito. A autoridade de Paterno como treinador havia atingido uma dimensão tão mítica que ele aparentemente pensou que podia ocultar impunemente acusações tão atrozes.

Ocorreu-me que na nova era de poder apoiado na multidão, em que as pretensões de distinção moral de cada indivíduo são suspeitas, isso jamais teria ocorrido. Mesmo com todo fanatismo pelo futebol da Penn State, a autoridade de Paterno e Sandusky jamais teria se sobreposto à nova ética da coletividade. A verdade teria surgido, arrastada para a luz por dedicados usuários sem ego, usuários desses descolados instrumentos de claridade inventados por Jobs.

Mas eu errei completamente a linha do tempo. Sandusky havia supostamente cometido suas atrocidades, e Paterno as havia ocultado, de 1994 a 2009. Foi justamente nesse exato período que a Apple e o novo poder coletivo atingiram seu predomínio social e cultural. Foi quando Jobs abalou a autoridade individual e nos tornou assistentes passivos. Resultado: Jobs foi o único que sobrou com autoridade moral suficiente para nos resgatar do mal que desfila pelas telas, enquanto nos sentamos inertemente diante delas. Mas Jobs se foi.

Oh uau.

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