Os objetos sonoros em sua natureza

Em Ensaio Sobre o Rádio e o Cinema - Estética e Técnica das Artes-Relé, 1941-1942, o compositor de vanguarda Pierre Schaeffer estabelece as bases de seu pensamento musical concreto

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2011 | 00h00

DJs do mundo inteiro deveriam reservar todo dia 2 de junho a uma balada especialíssima, em tributo ao pai de todos eles, o primeiro DJ de fato da história da música: o compositor francês Pierre Schaeffer (1910-1995). Pois foi numa quarta-feira, 2 de junho de 1948, que ele compôs uma obra chave, bíblia dos DJs contemporâneos, mesmo que eles não a (re)conheçam. Em seu premonitório Estudo de Ruídos n.º 5, para os íntimos Estudo das Caçarolas, Schaeffer trouxe para um primitivo estúdio de gravação, em Paris, objetos sonoros tão diversos quanto caçarolas, um bolachão 78 rotações de Sacha Guitry, os sons de uma chata, um disco americano de acordeon e outro balinês. "A seguir", descreveu depois, "exercício de virtuosidade nos quatro potenciômetros e nas oito chaves de contato". Ineditismo que atraiu os jovens compositores Stockhausen, Boulez e até o quarentão Messiaen ao seu estúdio.

Nascia ali o que o mundo conheceu em seguida como a "música concreta", a primeira grande revolução musical do segundo pós-guerra no século 20. Um estrondo tão grandioso que até hoje está presente, com todo vigor, tanto nas baladas funk dos morros cariocas quanto nos mais seletos ambientes jovens internacionais. E foi decisiva na caminhada para a afirmação da música eletroacústica contemporânea, cujos papas ironicamente o desprezam. Isto é, Schaeffer foi decisivo para a vanguarda e depois para as músicas populares - feito que nenhum outro criador do século 20 pode exibir.

Do lado pop, a atualidade se vê, por exemplo, na listagem de últimos lançamentos de obras de Schaeffer na Amazon: o primeiro é o reluzente vinil Pierre Schaeffer: Cinq Études de Bruits - Étude Aux Objects, lançado em 8 de fevereiro passado. Público-alvo preferencial: DJs de todo o mundo.

No domínio erudito, apesar da paulada que levou de Boulez e do seu isolamento nas décadas seguintes, ele reverberou até mesmo por aqui. O uruguaio Conrado Silva, radicado no Brasil há muitos anos, constatou isso em um artigo de 1985: "A procura de uma linguagem própria para a música da América Latina (...) passa indefectivelmente por uma fase de questionamento didático: de reformulação de todos e cada um dos conceitos que formam a música. (...) A característica concreta da música eletroacústica, trabalhando diretamente com o som, e não com notas, a torna extremamente flexível para uso pedagógico: alunos sem conhecimentos prévios da teoria musical poderão, atuando diretamente sobre a massa sonora, aprender a organizar textura e estrutura (...) Essa experiência didática será de vital importância, seja qual for o caminho criativo que o compositor escolha mais tarde, pois coloca simultaneamente em jogo o artesanato prático, o pensamento criativo e a autocrítica".

É por isso que o projeto de pesquisa de Carlos Palombini, professor na Escola de Música da Universidade Federal de Minas Gerais, tem atualidade e é significativo para a realidade musical brasileira. Ele publica, pela primeira vez e em edição crítica dupla - traduziu para o português em livro da Editora da UFMG e publica em francês pelas Editions Allia - o Ensaio Sobre o Rádio e o Cinema - Estética e Técnica das Artes-Relé, 1941-1942, de Pierre Schaeffer.

No texto de abertura, Palombini une a música concreta aos bailes funk cariocas ao fazer uma aposta otimista: "É possível, embora improvável, que um dia os habitantes das áreas nobres do Rio de Janeiro prestem ouvidos menos condicionados aos gritos de seus concidadãos das favelas. Nesse dia, a "limpeza da situação aural", essa "revolução pessoal" que resulta do trabalho iniciado no Ensaio, terá se transformado numa revolução coletiva e, conforme a um velho mito brasileiro, pacífica".

O pesquisador brasileiro estabeleceu o texto trabalhando um ano em Paris, entre 2008 e 2009, nos arquivos Schaeffer, ao lado de Sophie Brunet e com a colaboração de Jacqueline Schaeffer. Só agora restaurado em sua íntegra, nele Schaeffer estabelece - a partir de um estudo sobre a natureza, técnica e estética da rádio e do cinema - as bases de seu pensamento musical concreto, que culminariam no Tratado dos Objetos Musicais, de 1966. Maltratado pelas tropas do Ircam de Boulez e pela musicologia das últimas décadas, Schaeffer vem sendo incompreensivelmente mal avaliado. Palombini lhe devolve sua justíssima importância.

Fascínio e limites. O ensaio, um dos textos fundadores das reflexões sobre o rádio e o cinema, foi escrito em 1940/41, em Marselha. Schaeffer tinha 30 anos; estudara violoncelo no conservatório de sua cidade natal, Nancy, e depois eletricidade e telecomunicações na Escola Politécnica. Em 1934 dirigiu o serviço de telecomunicações em Estrasburgo; em 1936 transferiu-se para o serviço de rádio em Paris. "Em 1941", escreve Palombini num dos primeiros artigos, de 1999, que deram a largada na pesquisa ora concluída, "ele reuniu o cinema e o rádio sob a designação de "artes-relé", comparando o meio a um instrumento cujo duplo papel era "retransmitir, de uma certa maneira, o que costumávamos ver e ouvir diretamente e expressar, de uma certa maneira, o que não costumávamos ver e ouvir"; movendo-se com desenvoltura no domínio abstrato, mas não no concreto, a escrita aspirava à concretude; movendo-se com desenvoltura no domínio concreto, mas não no abstrato, as artes-relé aspiravam à abstração."

Nos dicionários, relé é qualquer dispositivo elétrico por meio do qual uma corrente ou sinal em um circuito pode abrir ou fechar outro circuito. Relé é hoje mero botão que liga ou desliga o aparelho de rádio. Apesar disso, anota Palombini, pode ser visto como uma espécie de "amplificador elétrico".

O ensaio de Schaeffer é riquíssimo de implicações. O rádio e o cinema dissimulam uma renúncia essencial: a "impossibilidade de restituir o original com todas as suas qualidades. (...) Eles não transmitem o objeto mas sua imagem, nem os sons mas uma modulação". E, ao distinguir as artes clássicas das artes-relé (rádio e cinema), ele diz que "o rádio e o cinema estão para as artes clássicas como o telégrafo está para o correio postal". No correio a transmissão é direta, não há intermediário. Já o telegrama "transmite apenas sinais e, da carta, apenas os signos em sinais". E conclui: "É bom lembrar que na origem o rádio e o cinema são essencialmente sinais".

A vantagem é a difusão ampla, mas ao "preço da transformação do objeto em imagem, do som em modulação". Para que as ditas artes-relé "possam aspirar à condição de arte, poderemos estar certos de encontrar a origem dessa arte nos embates que os homens do rádio e do cinema terão travado com suas restrições essenciais".

Signos. Por que o rádio e o cinema atraíram tanto as atenções de Schaeffer? Porque, ele mesmo explica na página 74, ambos "reencontram o pensamento a partir das coisas (...), a linguagem é propriamente simbolista e idealista, produz signos; o rádio e o cinema são realistas e naturalistas, não são signos do homem, mas sinais que lhe ensinam os objetos". Rádio e cinema dão forma a objetos que lhes são exteriores. Ora, este foi justamente o seu norte o tempo todo: construir uma música que dispensasse intermediários como a notação escrita e tomasse como ponto de partida os próprios objetos sonoros. É o que chamou de "escuta reduzida", ou seja, ouvir os objetos sonoros em si. Abrir os ouvidos para o mundo, sem intermediário algum. É, a um só tempo, o pré-parto da música concreta que ele inventaria em 1948 e também aguda análise do rádio e do cinema nos anos 40 do século passado. Daí a imensa atualidade, e outro tanto de lições, desse magnífico Ensaio.

JOÃO MARCOS COELHO É JORNALISTA E CRÍTICO MUSICAL, AUTOR DE NO CALOR DA HORA (ALGOL)

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.