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Os novos leitores

Hoje, comunicação parece combinar alfabeto fenício com rebuscamentos de códices maias

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

27 Maio 2018 | 02h00

Sem ter plena consciência disso, ao ler este texto, você está fazendo parte de uma transformação radical. O surgimento de símbolos que registram ideias foi uma revolução. Poder ler, caro leitor e querida leitora, é habilidade com mais de cinco milênios de histórias. 

Houve cinco berços de escrita no nosso planeta: Egito, Sul da Mesopotâmia, Mesoamérica, China e vale do Rio Indo. Há um debate sobre o uso andino dos quipos (sistema de nós em cordões) como escrita tridimensional. Decifrar uma escrita traz um universo de descobertas para a compreensão do passado. Escrita e Estado estão associados e a função de escriba é, praticamente, uma função oficial. Os governantes e seus aliados burocráticos controlam impostos, leis, quantidades de estoques, contratos e textos religiosos. O mais frequente registro escrito, por exemplo em Ur (Suméria) ou em Palenque (Iucatã), trata de listas de reis e dos seus feitos. A escrita possibilitou o controle sobre as populações. Até hoje colhemos um eco do princípio: o governante letrado é mais bem aceito. Falar ou escrever mal é uma injúria jogada à socapa na face de um poderoso. Getúlio Vargas decidiu que deveria fazer parte da Academia Brasileira de Letras. Um membro da junta militar de 1969, o paraibano Aurélio de Lira Tavares, teve a mesma ideia. Nada endossa mais a pretensão de poder do que, como dizia Angel Rama, o apoio da “Cidade das Letras”. 

Yuval Harari, no livro Sapiens, fez a primeira crítica que conheço sobre a sedentarização dos grupos humanos (e as consequentes escrita e Estado). Para o historiador israelense, os bandos de caçadores e coletores eram mais felizes e com dieta mais variada do que os que plantavam cereais à margem de grandes rios, como o Tigre, Nilo ou Yang-Tse. Em tantas décadas de dedicação à história, nunca tinha lido argumentos adversos à transformação técnica da Revolução Neolítica (agricultura) e Urbana. Inconscientemente, meu cérebro desenvolvimentista achava que bronze era melhor do que pedra e o ferro superava os metais mais maleáveis. Marcado por uma provável visão europeia, eu sempre vi o Estado, a escrita, a vida urbana e a domesticação de plantas e animais como um salto humano para o progresso. Harari lembra que o Estado, as pirâmides, os zigurates, a escrita e os vastos campos de arroz foram benéficos à glória de alguns e submissão de muitos. A explosão civilizacional do Egito, por exemplo, foi uma cornucópia fabulosa que jorrou dividendos sobre o faraó e um pequeno grupo. Além da elite nilota, os beneficiados das novas técnicas e dos milhares de artefatos artísticos foram os museus contemporâneos e os historiadores. A glória do Louvre e do Britânico oculta milhões de trabalhadores que entregaram suas vidas para que sacerdotes, faraós e escribas pudessem nos impressionar com sua criatividade e feitos. Grupos nômades ágrafos deixam menos legados materiais. Seriam mais felizes? Harari assevera que sim. 

As complexas escritas ideográficas do Egito e outros lugares foram dando lugar à revolução do alfabeto. Realizamos uma grande exposição em São Paulo (A Escrita da Memória) sobre o salto rumo ao modelo que, no fundo, você e eu aproveitamos até hoje. Conjunto fixo de sinais gráficos com sons associados facilitaram o aprendizado. Não foi à toa que o alfabeto nasceu entre comerciantes fenícios. 

A escrita espraiou-se. Dos suportes originais (estelas, pergaminhos, papiros, tabletes de barro, papel) atingiu todas as superfícies, inclusive a pele humana. Com o despertar da comunicação instantânea das redes, mais a alfabetização crescente no nosso planeta, somos o período da história com mais alfabetizados e com o maior volume de leitura e escrita de todos os tempos. Um jovem de 14 anos passa quase o dia inteiro escrevendo e lendo. Ressurgem, nas telas, as formas semíticas (sem registrar vogais), escritas simbólicas (emojis) e uma comunicação que parece combinar o alfabeto fenício com rebuscamentos de códices maias. Escrita simbólica e fonética, talvez impossível de ser lida em voz alta, mas perfeitamente compreensível para adolescentes. 

O tempo do leitor foi transformado. Todos que escrevemos para o público sabemos a lição surpreendente: se o argumento principal estiver a partir do terceiro parágrafo, não chegará a muitos. Sou testemunha privilegiada do fenômeno. Escrevo crônica contra ditaduras em geral, enumero as clássicas de direita (Pinochet, Geisel, Trujillo) e, depois, dedico um enorme espaço às ditaduras de esquerda (Cuba, Venezuela, Stalin, Mao). Mal o texto sai a público e uma pletora de mensagens inunda minha praia: “Da esquerda você não fala nada, não é seu comuna?”. Problema central? As ditaduras de direita estavam no segundo parágrafo e as de esquerda no quarto. O sábio beneditino que levava meses copiando e ilustrando um delicado manuscrito no silêncio do scriptorium medieval foi substituído pelo leitor polarizado, focado em manchetes, com déficit de atenção e mais rápido em formular insultos do que em capacidade de ler. Talvez Yuval Harari tenha razão, éramos mais felizes arrancando raízes e abatendo capivaras. Nunca tantos seres humanos tiveram a capacidade de ler. Nunca tantos leitores tiveram crescente dificuldade com a interpretação do lido. 

No Louvre, há uma pequena imagem de 53 cm retratando um escriba. Ele está sentado, atento, esperando um ditado que, após anos de treinamento, torna-o apto a transferir ideias complexas para o suporte da escrita. Olho para a imagem sempre que vou a Paris e penso: o que ele diria da nossa sociedade lendo frases sintéticas o dia todo? Bom domingo para todos os escritores e leitores. 

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