Os novos fados de Zambujo

Artista português de alcance planetário, António Zambujo vem remoçando o fado não apenas na forma, mas também em seu conteúdo. Não são só o jeito de cantar, a delicadeza da voz, a sonoridade que incorpora sons de outras paragens, como o Brasil e a África. Como se ouve em Quinto, o CD que o cantor alentejano lança com shows em São Paulo (Tom Jazz, dias 19, quando faz 37 anos, e 20) e Rio (21, 22 e 23, na Caixa Cultural), as temáticas das canções falam à contemporaneidade, a linguagem é mais coloquial do que a do gênero-símbolo de Portugal.

ROBERTA PENNAFORT / RIO, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2012 | 04h26

"O objetivo é sempre de que as letras sejam as mais modernas possíveis, para que cheguem aos mais jovens. Quero cantar algo com o qual me identifico. Não faz sentido falar de caravelas", diz Zambujo, que tem entre seus letristas constantes João Monge (que assina cinco faixas) e Rodrigo Maranhão (da encantadora Maré). Para Quinto, ele contou ainda com um inspirado José Eduardo Agualusa (Milagrário Pessoal, título também de um livro do escritor angolano).

O fado mais tradicional tem seus representantes nas doídas Só Pode Ser Amor ("a saudade é a foz depois é tanto mar"), Rua dos Meus Ciúmes (a única regravação num mar de inéditas) e Noite Estrelada, mas o tom das faixas tende menos à melancolia e mais ao frescor de uma paquera. Como em Lambreta, em que a moça é chamada para uma voltinha de motoca e instada a esquecer "o tal Vilela", um ricaço que tem "carro e barco à vela": "Se ele é tão tão e tem tem/ tem que ter algum defeito".

É uma das faixas em que há um narrador a contar uma historinha. Outra é Algo Estranho Acontece, que fala de um casal maduro, a velhinha com seu "ar ruim", "a ruga a espreitar no espelho", "a artrite, a hérnia e a muleta". Em Queria Conhecer-te Um Dia, o caso é de uma busca por amor pela internet. "A procura teve zero resultados", lamenta.

"Se as músicas perdem em melancolia, ganham em outras coisas", ele acredita. O inconfundível som do violão português, o baixo, o cavaquinho (instrumento tradicional em seu país, de onde partiu para o Brasil e a África) estão praticamente em todo o CD. Em Flagrante, sente-se um cheiro de samba.

"O resultado do disco reflete todas as minhas influências, que vão do fado à música brasileira e à de Cabo Verde", conta Zambujo, presença frequente aqui desde 2007, quando o CD Outro Sentido saiu pela MP,B Discos/Universal. Em 2010, veio Guia. Além de Maranhão, Márcio Faraco e autores mais antigos, ele já gravou Ivan Lins e dois Vinicius.

A referência maior, o que o tragou para cá, foram a voz e o violão de João Gilberto. As portas se abriram, ele acredita, quando Caetano lhe deu seu aval - "Zambujo faz pensar em João e em tudo que veio à música brasileira por causa dele", escreveu o baiano sobre Outro Sentido. É isso. E muito mais, como avalia Agualusa: "Cantadas por Zambujo, todas as coisas ganham uma luz de princípio de mundo."

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