Os notáveis ao redor da caixa de Pandora

Tratar de tendências ou perspectivas é algo acima do “chute” e abaixo da verdade

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

01 Janeiro 2018 | 03h00

Falar do futuro que ainda não existe é um exercício poético. Ficções e utopias são sempre documentos sobre o dia de hoje. Tratar de tendências ou perspectivas é algo acima do “chute” e abaixo da verdade. 

Os pequenos textos constituem um quadro desafiador a partir de muitas personalidades e suas distintas visões de Brasil e de mundo. São olhares privilegiados. Falam, em primeiro lugar, dos próprios autores e, secundariamente, do objeto “expectativas”. Porém, esses “haicais” sobre 2018 se revelam importantes. Funcionam como a fábula do elefante descrito por cegos: cada um transforma sua impressão no todo. O Brasil é formado por mais de 200 milhões de cegos como eu e como você. Cada um insistirá em uma corda, coluna, espada ou parede de acordo com a parte do paquiderme a qual estiver habituado. Nossa subjetividade é o nosso reino. É salutar ouvir notícias de outros territórios mentais.

No campo da política, quem está lançando projeto ou chegando aos holofotes agora é dominado pela esperança. É o caso do juiz Marcelo Bretas ou Eduardo Mufarej, com projeções no rumo de uma pátria proba e de uma geração de semeadores. Fernando Gabeira, pelo contrário, viu projetos políticos subirem e descerem e já participou de utopias e das respectivas decepções. Diminui a cor do item renovação dramática e indica o caminho mais desconfiado inclusive, sob o horizonte de volta do crescimento.

Na economia, Gustavo Franco faz seu depoimento a partir do desejo-análise: maior ortodoxia e foco na classe média. José Roberto Mendonça de Barros pensa menos na articulação de mando e mais na base dada pelo reaquecimento do comércio. Luiza Helena Trajano aposta na pressão da sociedade civil sobre as instâncias de decisão. Luiz Carlos Trabuco Cappi quase solta um suspiro aliviado pelo fim de 2017. Como é comum, o horror do presente estimula o desejo de futuro mais tranquilo. 

No plano internacional, a perseguida procuradora da Venezuela assume o papel de sibila vingativa e aposta na destituição do projeto bolivariano daquele país. Sempre analisamos o “efeito tequila” (o México ser nosso horizonte) ou o “efeito tango” (a influência da Argentina) sobre o Brasil. Nunca pensamos em batizar um “efeito joropo” ou o “efeito arepa” sobre os riscos de a Venezuela estar mais ao fundo de um poço sedutor a tantos. 

No item Metrópole, o médico Roberto Kalil Filho fala da importância do SUS para a maioria da sociedade brasileira. O caminho apontado pelo especialista seria a saúde pública imitar mais o modelo do InCor. O público também aparece na indicação do arquiteto Vinicius Andrade. Tanto o médico como o arquiteto indicam as sendas para o fim do isolamento em encraves privados de medicina ou habitação e a redescoberta da dimensão social. Ambos fazem uma aposta política ao destacar o papel do Estado na melhoria da vida biológica e social dos cidadãos.

Os atletas parecem sair de uma fase de memória de dificuldades para uma esperança na área. Todos reclamam de forma sutil das entidades e da dificuldade de verbas. Depois de uma relativa euforia com a Olimpíada e a Copa no Brasil, restou um gosto mais acre do que imaginamos. 

No setor cultural, três depoimentos distintos. Ingrid Guimarães faz a aposta otimista na esperança desabrida. Fernanda Torres dá uma dimensão negativa ao conceito e prefere falar da crueza do mundo real. Lázaro Ramos parece desenvolver um caminho entre os dois mundos: anseios entremeados de dificuldades. Meu coração está com a Ingrid, meu cérebro anui com a Fernanda e meu 2018 deverá seguir o roteiro do meu amigo Lázaro Ramos.

Walter Salles deixa entrever o possível a partir de uma forte crítica ao ano que se encerra. Sua posição sobre nossa democracia claudicante é forte. 

Fazendo balanço geral, as expectativas dizem respeito a vários conceitos opostos-complementares. Um gira em torno do papel do Estado e da sociedade civil. Há quem compre fichas para uma solução estratégica dada pelo governo, outros fazem fé na sociedade civil. O Estado seria a causa ou a solução dos nossos problemas? Os notáveis dividiram-se. Junto com o conceito de ética, o tamanho do Estado será um eixo da campanha no ano de 2018.

O outro par conceitual orbita sobre a própria ideia de esperança: devemos cultivar a ansiedade otimista ou ela atrapalha o real, devorador de sonhos? O anseio sorridente do esperançoso dificulta-lhe lidar com a resiliência dos mil pequenos embates pela frente? É a pergunta que Hamlet faz no seu monólogo mais importante. Vivemos, segundo o dinamarquês, em um “mar de dificuldades” (sea of troubles) que erode nossa decisão e nos alveja no propósito. Devemos lutar ou ceder ao imperativo circunstante do real? O otimista diz sim e o pessimista não. Ambos morrem ao final da peça. Se o final é o mesmo, ao menos o otimista possui esta xilocaína para as flechas inevitáveis. Pangloss e Hamlet parecem olhar para a mesma caixa de Pandora com olhos distintos. Normalmente, gosto mais do otimismo panglossiano em janeiro. Costumo chegar a dezembro com a melancolia de Elsinore. Feliz 2018 para todos nós!

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