Os nós do desejo na dança de Deborah Colker

Deborah Colker arrasta multidões por onde se apresenta. Na temporada no Rio ficou três meses em cartaz. A receita do sucesso: bailarinos bem treinados, movimentos ágeis, cenários exuberantes, jogo de luzes e muitas horas de ensaio. A intrépida coreógrafa estréia hoje só para convidados e a partir de amanhã para o público, a coreografia Nó, no Teatro Alfa. Nó leva ao palco mais de 120 cordas, de diversos tamanhos, texturas, cores e materiais. Em um primeiro momento, todas presas como uma grande árvore. Aos poucos vão se soltando até ocupar todo o espaço. "Fui a campo pesquisar os tipos de cordas que existem. Visitei ferro-velho, o cais do porto e até encontrei algumas cordas mais sofisticadas usadas na Alemanha, mas proibidas no Brasil, feitas de cânhamo. O interessante era a mistura, porque as pessoas são diferentes entre si", explica o cenógrafo Gringo Cardia. Os bailarinos usam cordas vermelhas, feitas de um tecido especial para não machucar. As cordas dançam com os bailarinos - seus movimentos são sinuosos e imprevisíveis. "Elas simbolizam o primitivo, um objeto fetichista e ao mesmo tempo a relação entre o dominado e o dominador", diz Deborah. A coreógrafa escolheu esse cenário para mostrar as "amarrações" do desejo, o tema central do espetáculo. "Comecei a pensar nesse tema quando criei Ela para a Ópera de Berlim. Passei a refletir sobre o desejo de ter, de possuir - até mesmo no que diz respeito à sensualidade - e confrontei com as leis e com a ética. Procuro investigar esse universo, esse nó de cada um, como as pessoas administram seus desejos." Neste primeiro ato, os bailarinos vestem malhas cor da pele com alguns detalhes pretos. O figurino é assinado pelo badalado estilista Alexandre Herchcovitch. "O impacto das cordas vermelhas que prendem os bailarinos é forte. Fica claro o movimento do corpo e o movimento da corda. Como eles se aprisionam e se libertam. Como dialogam em cena." Gringo Cardia criou uma caixa translúcida que ocupa o centro do palco durante o segundo ato. A inspiração veio da Holanda, onde mulheres ficam expostas em vitrines. "Fiquei impressionada com aquilo, pessoas vistas como mercadoria. Nesse momento a questão do fetiche e da sexualidade fica mais forte. No início do trabalho quis discutir mais a questão do poder, acabei caindo no corpo e na sexualidade." Para chegar a esse resultado a equipe passou 2 anos e meio em produção. Deborah já está a todo vapor com a produção de um novo espetáculo que estréia em janeiro na Alemanha. O tema não poderia ser outro em ano de Copa: o futebol. "No começo fiquei reticente, mas encarei o desafio." E ela literalmente entra em campo. "Passei a observar a movimentação dos jogadores e vou acompanhar os treinos táticos da seleção brasileira em Teresópolis. Busco um olhar artístico, como se fosse pintar um quadro." Em cena, 16 bailarinos brasileiros e estrangeiros. Cia. de Dança Debora Colker. Teatro Alfa (1.134 lug.). R. Bento Branco de Andrade Filho, 722, Santo Amaro, 5693-4000 ou 0300-7893377 - www.teatroalfa.com.br. 4ª a sáb., 21h, dom., 18h. R$ 30 a R$ 70. Até 2/10

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