Os nomes das pessoas

Nunca encontrei alguém chamado Lúcifer, ainda que tenha topado de quando em vez com indivíduos com seu comportamento

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

31 Dezembro 2017 | 02h00

Sem a corrida de hoje em São Paulo, o papa que lhe empresta o nome seria bem mais obscuro para o grande público. Silvestre I é o pontífice da transição para uma igreja triunfante sob o imperador Constantino. Governando entre 314 e 335, ordenou a construção de obras monumentais que começaram a redesenhar a paisagem romana. No seu governo, ocorreu o Concílio de Niceia (325), para o qual enviou representantes. Naquele encontro, princípios basilares como a divindade de Cristo foram definidos. Um novo papa para um novo momento: foi tornado santo sem ser mártir. 

O dia 31 de dezembro assinala o enterro de Silvestre na catacumba de Priscila, na Via Salária. Na Itália, a refeição de ano-novo é chamada de “cena di San Silvestro” em homenagem ao prelado que, segundo a tradição medieval, teria curado Constantino de lepra. 

Silvestre encerra o ano e amanhã ocorre a festa do Santíssimo Nome de Jesus. Como todo menino judeu, Jesus sofreu circuncisão e recebeu um nome no oitavo dia do nascimento. A tradição estabeleceu a data (desconhecida do Evangelho) de 25 de dezembro para a natividade. Oito dias depois, deu-se a Brit Milah do filho de Maria. A partir de 1º de janeiro, Jesus tem um nome próprio, algo muito significativo na tradição do povo do Livro. Só para lembrar, seu primo João, para receber um nome que não constava da tradição familiar, necessitou da intervenção de um anjo e da mudez do pai Zacarias. 

Nomes são fundamentais na Bíblia. Carregam significados como o do primogênito de Abraão, Ismael, que contém a ideia de que Deus ouviu ao chamado do fiel. A intervenção divina muda o nome das pessoas: Saulo para Paulo, por exemplo. Papas assumiram nome distinto do que tinham recebido no batizado para ocupar o cargo. Quem pensaria no papa Pio XII como Eugênio ou João Paulo II como Karol? O bom papa João XXIII teria a fama idêntica se o nome Ângelo tivesse sido mantido? Alguém pensa no atual papa a não ser como Francisco? Ele nunca foi Jorge Mário! Certamente tinha o rosto de Francisco desde 17 de dezembro 1936, seu nascimento.

Coisa curiosa: os nomes tradicionais da Bíblia (como Davi, Salomão, Isaac e outros) multiplicam-se na comunidade judaica. Jesus tornou-se barreira poderosa e o nome desapareceu da tradição dos hebreus. 

A ficha corrida de alguns colabora para exaltar ou destruir um nome. Lúcifer quer dizer “portador da luz”, solene e bela etimologia. A rebeldia do arcanjo arrastou para a lama sua luminescência. Nunca encontrei alguém chamado Lúcifer, ainda que tenha topado de quando em vez com indivíduos com seu comportamento. 

Origem dos nomes é um bom tópico para conversa inicial, ao menos superior ao tema meteorológico. Brinco com isso quando pergunto a toda Cláudia se manca, aos Filipes se amam cavalos e a qualquer Rafael se sente que Deus o cura. Para comprovar como o nome é tudo, lembro que o meu faz composição greco-latina com o significado de “homem leão”, haja vista a juba que ostento. Todo Teófilo amaria Deus? 

A tradução dos nomes é outro caso digno de nota. Uma das que mais parecem fugir de nossa compreensão imediata é a dos dois apóstolos Tiago dos Evangelhos, que viram Jacques em francês ou James em inglês. Quando nos lembramos que (T)Iago vem de Jacó, fica mais fácil entender a miscelânea. Em português, Diogo tem a mesma etimologia. Há também os apelidos que fogem da compreensão de alguém que não é nativo, como chamar William (Guilherme) de Bill no mundo anglófono ou José de Pepe em espanhol. Da mesma forma, que brasileiro adivinharia que todo Pancho é, originalmente, um Francisco? Efeito reverso: tente explicar aos de língua castelhana como derivamos do mesmo nome o apelido Chico. 

Para quem vai gerar vida nova em 2018, ouçam o conselho de um velho professor. Nomes com letra A serão os primeiros da chamada, momento de certa balbúrdia na sala. Nomes com Z terão de prestar atenção a dezenas de outros antes de ouvirem o som libertador do seu. Denominações que implicam soletrar, explicar a presença de uma letra dobrada, um acento exótico ou um Y engastado à força em alguma sílaba terão o destino de repetir as indicações todos os dias até o túmulo, com o risco de terem seu onomástico inscrito errado na lápide. Nomes com muitas sílabas geram apelidos. Nomes que rimam com coisas jocosas são uma sina. Cuidado!

Combinar a denominação do pai e da mãe raramente resulta em beleza sonora. Os que optam por nomes da moda devem pensar: a onda passa, o seriado acaba, a novela desaparece, mas o nome de seu rebento, não. Iniciais com a mesma letra ou sons similares para os filhos mostram que os pais não pensam neles individualmente, porém em uma sequência industrial. 

Não existe um ideal, todavia nomes eufônicos, curtos, sem acento ou letras dobradas, e sem necessitarem de bula explicativa tendem a causar menos incômodo aos proprietários. Sempre: menos criatividade na escolha tende a tornar o futuro adulto mais satisfeito e sem ódio mortal ao impulso dos pais. 

Por fim, questão menor: a geração do século 21 será mais internacional do que a nossa. Muitos circularão entre várias línguas e culturas. Belos nomes com nossa sílaba “ão”, impronunciável em todos os idiomas, causarão um pequeno obstáculo social ao portador. Há poucas chances de o português ser a língua dominante do atual milênio. Sem perder a identidade da língua materna, é interessante levar em conta a possibilidade de algo possível em outros passaportes.

Enfim, bom ano-novo para todas as pessoas de todos os nomes. Nome é importante, porém não é tudo. Silvestre passou para a história mesmo sendo Silvestre. Sempre teremos esperança. Feliz 2018!

 

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