Os mundos de Richard Burton

O explorador Richard Francis Burton (1821-1890) deixou para o Ocidente versões para o inglês de obras como As Mil e Uma Noites e Kama Sutra, além de uma história pessoal que não ficava devendo nada às lendas milenares dos povos aos quais dedicou boa parte da vida. Espécie de camaleão, capaz de se confundir na aparência e nos idiomas com sociedades da Índia, do Oriente Médio e da África, o britânico teve a trajetória retratada em dezenas de biografias, mas demorou mais de um século para que um escritor percebesse o potencial ficcional da sua existência.

Raquel Cozer, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2010 | 00h00

Foi o búlgaro Ilija Trojanow quem se propôs a esse desafio com O Colecionador de Mundos (tradução de Sergio Tellaroli, Companhia das Letras. 414 págs., R$ 51), romance que tem lançamento hoje, às 19h, com debate no Goethe-Institut São Paulo (R. Lisboa, 974, tel. 3296-7000, entrada franca). O título, que lhe rendeu elogiosas críticas em todo o mundo e prêmios como o de literatura da Feira do Livro de Leipzig, une as mais diferentes vozes - inventadas por Trojanow, registradas por Burton, descritas por biógrafos - numa narrativa capaz de humanizar tanto a complexa personalidade do britânico quanto as realidades que os europeus tendem a ver apenas de forma superficial.

"Queria escrever um romance sobre o encontro entre a Europa e outras culturas no século 19, mas também dar a essas outras culturas uma voz que fosse além das notas de rodapé que lhes costumam ser dadas nas ficções ocidentais", diz, em entrevista por e-mail ao Estado, o autor, que participou da Bienal do Livro de São Paulo em 2008 e está desde a semana passada no Brasil para uma série de eventos. O romance narra três importantes viagens de Burton do ponto de vista dele próprio, mas também o de criados e autoridades que teriam convivido com essa figura tão singular. Cada uma dessas expedições compõe uma subdivisão do volume: a estada de oito anos do britânico na Índia, sua peregrinação de Meca a Medina, disfarçado de muçulmano afegão, e o mergulho nos confins da África em busca da nascente do Nilo.

Explorações. Assim como Burton, Ilija Trojanow coleciona mundos. Nascido na Bulgária, em 1965, e criado no Quênia como filho de refugiados a partir de 1972, depois de uma temporada na Alemanha Ocidental, o escritor entrou em contato com a história de Burton quando tinha apenas 10 anos, ao ganhar dos pais um livro do explorador. Cultivou ao longo de décadas o interesse pelo assunto, até se decidir a seguir os passos do britânico. Viveu por vários anos na Índia, refez os passos de seu personagem na África Oriental e fez parte de grupos de estudos sobre o Islã. Hoje, diz se sentir integrante de todas essas culturas.

"Como búlgaro, sou em parte oriental, e escrevo em dois idiomas que não são minhas línguas maternas (inglês e alemão). De certa maneira, a ideia de lar para mim é algo complexa. Mas sinto que essa característica que poderia ser definida como cosmopolita não é um predicado meu, e sim uma das maneiras de desenvolver individualidade criativa em época de globalização", avalia.

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