Os muitos sotaques de Harper

Ben Harper é um cara do rock. É verdade que seu dotes evoluem muito bem por outras praças, mas é quando esmerilha a volumosa guitarra, alternando técnicas e intenções, que temos a melhor representação do artista californiano. Seria injusto confundi-lo com os virtuoses de muito discurso e pouca poesia. Harper tem uma relação transcendental com a música, busca falar sobre coisas da alma. Em Give Till It"s Gone, as reflexões de cunho existencial ganham tons psicodélicos, já experimentados ano passado no trabalho com o trio Fistful of Mercy. O eterno retorno aos Beatles de Revolver e Sgt. Peppers é provado desta vez ao lado de Ringo Starr, que brilha na excepcional Get There from Here, mas decepciona em Spilling Faith. Clássico e convencional, o cantor homenageia Neil Young na faixa candidata a hino, Rock N'' Roll is Free. Bem melhor é a pulsante e direta Clearly Severly, como se tivesse saído do arsenal de uma banda indie. Mais calminha e não menos impressionante é Don"t Give Up On Me Now, balada disposta a examinar o fosso entre o plano das aspirações e o da frágil realidade. "Eu nem sequer conheço a mim mesmo", diz o refrão. Ainda que irregular, não se pode reclamar de falta de inspiração. Ben Harper, com seu típico atrevimento, consegue dar sabor ao que ele mesmo tanto já requentou.

Emanuel Bomfim, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2011 | 00h00

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