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Os monóculos da sua infância

Seria muito bom ouvir o que vocês teriam a dizer um para o outro. Alguma revelação, um sinal ou segredo. Qualquer coisa

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2021 | 03h00

A luzinha hipnotizante do roteador mandou avisar que ela não vem. Náufrago, você olha o celular atrás de alguma mensagem. Serviria qualquer bobagem. Um “sonhei com você” já estava de bom tamanho. 

No banheiro, o rolo de papel higiênico lembra que hoje é dia de fazer mercado. Com uma das mãos na parede, você faz xixi de olhos fechados (como o seu pai também fazia). 

A toalha que está pendurada no box é um fantasma carrancudo. O vapor do chuveiro embaça o seu espelho. Alice não vai encontrar o caminho de volta. Nunca mais. E você tem uma ideia brilhante que vai se esvair no xampu. 

Na pia, o prato é mais uma cara feia no escorredor. E a borda de uma pizza de ontem é o sorriso torto daquele mesmo prato triste.

Você olha pelo buraco de um coador de café como quem acha que ainda pode descobrir uma terra distante. 

O gesto te transporta para quando você tinha cinco anos e passava longas férias na praia. Você está de bonezinho, sunga e protetor solar. De frente para o mar, já com o pé na água, brinca com um monóculo vermelho.

Como eram mágicos aqueles monóculos da sua infância.

Você não tinha como saber. Ninguém tem. Mas, com aquele monóculo, o menino observava o homem adulto que usava um coador de café como se fosse uma luneta.

Neste encontro, talvez, estivesse guardado o segredo do universo.

O homem e o seu coador de café e o menino de monóculo se uniram por meio de um absurdo – desses que a gente só vê em gibi de super-herói. 

Seria muito bom ouvir o que vocês teriam a dizer um para o outro. Alguma revelação, um sinal ou segredo. Acho que qualquer coisa já seria de muito bom proveito.

Mas vocês se abandonam. Se abandonam antes de qualquer possibilidade de reconhecimento. Antes mesmo de uma mão estendida ou de um furioso dedo do meio. 

É que o menino tinha uma onda para pular e uma vida inteira pela frente. E você se deixou distrair pelo toque frenético do celular.

É ela! É ela! Você abandona o coador/luneta e corre atrás do aparelho. Ele deve estar na cama, escondido embaixo do lençol. É ela! É ela! Você atira travesseiros pelo ar. É ela! É ela! Alô? É ela! É ela, a operadora de TV a cabo querendo te apresentar uma oportunidade imperdível. 

Você desliga o telefone e se pergunta: quantas solidões cabem em uma xícara de café? 

A resposta está na borra, mas você não lê. O home office já começou. Chegou o primeiro e-mail. Bom dia. 

* Gilberto Amendola é repórter do Estadão e observador da vida urbana

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