Os modelos anônimos de Norman Rockwell

Moradores que posaram para o pintor e ilustrador se reúnem em Arlington

Katie Zezima, The New York Times, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2010 | 00h00

Eles foram pinçados em sedes da associação rural Grange, bailes de escola e entre pessoas comuns cujos rostos, pelas pinceladas de um vizinho, viriam a dar corpo à representação da cultura americana.

Durante mais de uma década, moradores dessa cidadezinha no sudoeste de Vermont trabalharam como modelos para Norman Rockwell (1894-1978). Por US$ 5, eles passavam algumas horas posando, suas faces jovens capturadas para sempre em calendários, cartões de agradecimento e pinturas.

O artista partiu de Arlington em 1953, e muitos de seus modelos infantis cresceram e fizeram o mesmo. No começo do mês, porém, dezenas voltaram para homenagear Rockwell; uma reunião de modelos adultos numa localidade que foi o cenário de muitas de suas obras mais emblemáticas.

"Esta é uma volta ao lar para muitos de nós", disse Ardis Edgerton Clark, que vivia ao lado da casa da família Rockwell, com a qual mantinha laços de amizade. "Muitos modelos partiram daqui", recordou Ardis, de 76 anos, que posou para meia dúzia de obras de Rockwell, incluindo Homecoming GI, em que ela passou um dia com outras crianças "no alpendre de uma casa de tijolos com a boca escancarada", com um soldado segurando uma sacola de lona se aproximando.

Rockwell "encenava o papel que queria que a pessoa fizesse, e mostrava a expressão", lembrou ela. Um fotógrafo estava sempre por perto e tirava numerosas fotos, às quais Rockwell recorria quando estava pintando.

"Nós ficávamos com as bocas abertas, as línguas para fora e os olhos entrefechados", garantiu Ardis Clark. "E ele encenando como eu devia fazer." Os Rockwells, por todos os relatos, se encaixavam perfeitamente nessa cidade que, com suas chácaras e comerciantes, havia se tornado uma colônia artística. Norman e sua mulher, Mary, tinham três filhos que frequentavam a escola, e Mary foi uma espécie de "segunda mãe" para Ardis, que trabalhou na casa da família durante o ginásio.

O pintor e ilustrador era muito envolvido na associação rural da cidade e se oferecia como voluntário para encerar e varrer o assoalho após os bailes, ressaltou Clarence Decker, outra antiga modelo. "Ele comentava que gostava de vender ingressos nos bailes porque estava muito interessado nas mãos das pessoas, e também em seus rostos e o que mais pudesse observar enquanto entregava os bilhetes." Rockwell provavelmente usou milhares de pessoas comuns como modelos enquanto viveu e trabalhou aqui e em Stockbridge, Massachusetts, argumentou Laurie Norton Moffatt, curadora do Norman Rockwell Museum em Stockbridge, para onde Rockwell se mudou nos anos 1950.

O museu realiza reuniões de modelos todos os anos e gravou histórias orais de pelo menos 80 homens e mulheres que posaram para ele. O último encontro, na Igreja Episcopal de Saint James daqui, foi o primeiro a ter modelos de Vermont.

Embora Rockwell extraísse certas características de seus modelos - a particular curva de um sorriso ou largura das orelhas -, suas ilustrações e pinturas eram altamente encenadas, segundo modelos e a curadora Laurie Moffatt. Com frequência, ele fotografava cada pessoa individualmente e a acrescentava à pintura. Por vezes, ele pegava feições de um indivíduo, um braço forte ou nariz proeminente, e as pintava ou desenhava em outro. Para Going and Coming, por exemplo, ele fotografou a avó de Ardis sentada numa cadeira, e depois a pintou andando de carro.

"Ele escolhia o elenco e dirigia", garantiu Laurie. "Cada pessoa posava sozinha e depois elas eram juntadas como numa colagem." Don Trachte, que ajudou a organizar a reunião do dia 7, só posou uma vez. "Eu era chato, e me comportava mal", desabafou ele, que acabou na capa da Child Life Magazine e em alguns cartões de Natal Hallmark.

Celebração. O evento do começo de agosto foi realizado durante o Norman"s Attic, feira anual de artesanato e de celebração a Rockwell. Os Rockwell criaram seus filhos nesta cidade, e Mary Rockwell, muitos recordaram, era uma figura maternal que convidava as crianças para sua casa e levava os modelos de um lado para outro.

"Mary foi minha segunda mãe", disse Ardis Clark. Seu irmão, James, conhecido como "Buddy", e um coautor, Nan O"Brien, escreveram um livro sobre viver perto dos Rockwells intitulado The Unknown Rockwell: A Portrait of Two American Families (O Rockwell desconhecido: Um retrato de duas famílias americanas).

As famílias cresceram extremamente próximas e Rockwell emprestou dinheiro aos Edgertons (que prontamente o pagaram) para comprar uma vaca e os Edgertons cuidavam dos três garotos quando seus pais estavam fora da cidade. Normam com frequência pediu a opinião dos Edgertons, especialmente durante a sessão para The Long Shadow of Lincoln.

Na longínqua infância, a amiga Clarence Decker faltou várias vezes às aulas para ser modelo de Rockwell. "E a escola colaborava e até dispensava alunos quando Norman pedia. Na época, eu não dava importância para esse trabalho, mas hoje é um orgulho tê-lo feito." / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

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