Os meteoros poéticos do 'marujeiro da lua'

Poema-personagem, happening ambulante, hiperbólico, incandescente, contraditório, polêmico. É assim que ressurge Waly Salomão, com suas múltiplas máscaras, no corpus crítico de Poesia Total, livro que reúne pela primeira vez num único volume 30 anos de poemas e canções, mais um apêndice com textos críticos, entre eles um ensaio de Antonio Cicero e um excerto de Hélio Oiticica, ambos publicados originalmente na segunda edição (2003) de Me Segura qu'eu Vou Dar um Troço, livro que marca a estreia de Waly em 1972.

MARIANA IANELLI É POETA, AUTORA DE O AMOR, DEPOIS (ILUMINURAS), ENTRE OUTROS, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2014 | 02h10

Numa edição retrospectiva semelhante às de Ana Cristina Cesar e Paulo Leminski, Poesia Total vem se juntar ao panorama da poesia produzida a partir do início da década de 1970, uma poesia que, nas palavras de Leminski, foi antropofagia, proveito e consumo das vanguardas do século e dos novos processos de produção, o que, se por um lado redundou em inovações logo tornadas banalidades, por outro lado enriqueceu a poesia em termos temáticos e lexicais.

Esse enriquecimento se comprova na obra especialmente entusiástica de Waly, que nem ao próprio poeta defende de seu crivo irônico ou patético de amor, que pratica suas liberdades na difícil clave de corpo e pensamento, sendo íntimo e ao mesmo tempo mascarado, a cada poema metamorfoseado num corpo de voz com ritmo próprio, híbrido de confissão e jogo, fogo e geometria, canção popular e ars poetica, festa dos sentidos e do intelecto.

Poetas doutores ou espontâneos, nenhum escapa ao alvo do sarcasmo agudo de Waly. Seu combate, no entanto, é inclusivo, por uma exuberância delirante, pela aurora da palavra, "travo rascante da palavra ACICATE / amalgamado ao olor da palavra açucena / & que arda / arda a razão atenazada / arda!!!". O ato performático, outra metamorfose da criação de Waly, era como o poeta criava "condições para que o delírio fosse a medida do universo". "Quem quer gozar comigo?", ele pergunta num poema de Gigolô de Bibelôs, de 1983, para acrescentar, 15 anos depois, num poema de Lábia: "Gozar, gozar e gozar / a exuberância órfica das coisas / em riba da terra / debaixo / do / céu".

Sailormoon, Sailor of all moons, santo desgraçado, baiano de Jequié, ladrão de Bagdá, poeta-guerreiro, farejador amoroso, peregrino atônito, livre mas cativo de uma gula feroz, nefelibata nato, cacto libertino, transformador de horrores, surrupiador de souvenirs, amigo do alheio, amigo de Platão: assim Waly, incorporando um de seus neologismos, se "indefine". Poderia ainda se dizer um polinizador de hibridismos, amante da citação e da paródia, com a pedra de Xangô no meio do seu caminho, sabendo, como sabia Mário de Andrade, que "a língua brasileira é das mais ricas e sonoras", dando em poemas explosivos, "lira de fagulhas", se a fala dos diferentes Brasis atiça os livros.

Waly, que quis fazer da poesia "um meteoro / (...) uma chuva de meteoros", convulsivo e sincopado também fez de sua obra um maremoto de ritmos, de vibrações no ar e na água. "Maré que puxa com força, hoje. / É a lua cheia, talvez...". Para o "marujeiro da lua" que Waly se autonomeava, abundam os céus, as nebulosas de sonho, os meteoros, as estrelas. "Não sou fóssil, sou míssil", declarava Waly, talvez sem lembrar que os meteoros de sua poesia, ou simplesmente os meteoros, são fósseis celestes, mísseis vindos do alto. Para quem invoca Proteu, Hermes, Orfeu, que sabe que o céu está coalhado de mitos em estrelas, o devir também é a redescoberta da força do céu no ritmo vigoroso de um poema.

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