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Os mestres do terror

Diretores e roteiristas elegem os filmes mais horripilantes da história do cinema

Jason Zinoman, The New York Times, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2011 | 00h00

Uma das melhores coisas da infância é a facilidade com a qual acessamos o distante prazer de sermos aterrorizados até quase perder o juízo. Para os adultos, é mais difícil arrepiar-se de medo. Isto ocorre porque a vivência é a inimiga do terror verdadeiro. Talvez o espectador sinta um frio na espinha ao assistir A Hora do Pesadelo pela primeira vez, mas, na segunda ou terceira, é provável que ele já se mostre indiferente. É por isso que os grandes fãs dos filmes de terror às vezes encontram dificuldade para descobrir um filme realmente capaz de testar os nervos. Eles já viram de tudo.

Aqueles envolvidos na produção de filmes de horror devem ser os que enfrentam o maior dos desafios. Eles sabem como funciona a engenharia de uma sequência assustadora, o que lhes confere uma boa ideia do que virá a seguir. E, como é de se supor que tenham entrado para este ramo em parte por causa dos prazeres proporcionados pelos tremores no escurinho do cinema, eles em geral já viram mais filmes de horror do que a maioria de nós.

Com o verão no hemisfério norte chegando ao fim, os cinemas receberam uma grande leva de lançamentos: este mês já viu a estreia de A Hora do Espanto e Premonição 5 e ainda devem chegar às telas Shark Night 3D e Criaturas da Noite, refilmagem de uma história de casa mal-assombrada rodada em 1973 que Guillermo Del Toro, roteirista e produtor da nova versão, chamou de o mais assustador longa-metragem produzido para a TV que ele já viu.

Mas, e quanto ao filme mais aterrorizante de todos os tempos? Quando perguntei a diferentes cineastas qual tinha sido o filme mais assustador que já tinham visto, suas apaixonadas respostas deixaram claro o quanto são exigentes os seus critérios. Eis abaixo alguns trechos dos e-mails enviados por eles em resposta.

Ti West, diretor de The House of the Devil e The Innkeepers

A imagem daquelas duas estranhas meninas de O Iluminado, usando vestidos azuis no mesmo tom pastel diante do papel de parede florido do corredor, ficou marcada na minha retina desde a primeira vez que as vi."Venha brincar conosco, Danny... Para sempre, para toda a eternidade..." Ainda posso ouvir o coro das vozes das pequenas gêmeas Grady quase tão bem quanto posso me lembrar de algumas de minhas canções favoritas.

John Waters, diretor de Mondo Trash e Mamãe É de Morte

Nenhum filme chega sequer perto do mórbido poder de chocar de O Massacre da Serra Elétrica. Simplesmente dizer este nome em voz alta já é o bastante para assustar até mesmo os verdadeiros serial killers.

Herschell Lewis, diretor de Banquete de Sangue

Há muito tempo, assisti ao Drácula original, a grande marca deixada por Bela Lugosi nos primórdios do cinema. Lembro-me apenas de algumas cenas e da minha insistência para que a luz do quarto fosse deixada acesa durante toda a noite. A sugestão do terror tinha de ser puramente cosmética: estava no brilho que ele emanava, e também no seu estranho sotaque aplicado à brutal enunciação das palavras. Alguns anos mais tarde, assisti ao filme novamente e ri muito da caracterização.

James Gunn, diretor de Seres Rastejantes

Assisti a Henry: Retrato de um Assassino nos cinemas quando o filme foi lançado, e o longa-metragem me pareceu tão sombrio e incisivo que fiquei me sentindo mal por alguns dias depois de vê-lo - como se a sua maldade tivesse grudado na minha alma. Parte daquilo que me pareceu tão assustador estava na incrível atuação de Michael Rooker. Normalmente, os espectadores se distanciam dos vilões, mas o ator faz com que quase nos identifiquemos com Harry. A última coisa que uma pessoa pode querer é identificar-se com um serial killer. Isto é mais assustador do que qualquer outro efeito que possa sair do quadro de um filme.

John Landis, diretor de Um Lobisomem Americano em Londres

Para mim, a disputa fica entre O Massacre da Serra Elétrica e O Exorcista. Não sou católico e não acredito na existência do Diabo, mas William Friedkin criou em O Exorcista uma completa suspensão da descrença. Fiquei genuinamente assustado, mas, depois, fui para casa e dormi feito um bebê. Meus amigos, católicos pouco praticantes e antigos coroinhas, tiveram pesadelos por semanas! O sobrenatural não é real, mas os psicopatas, assassinos e canibais, são.

Marti Noxon, roteirista da refilmagem de A Hora do Espanto e roteirista e produtora da série de TV Buffy, a Caça-Vampiros

Foram muitos e muitos os filmes que me mantiveram acordada à noite quando eu era menina, e um dos piores foi No Mundo de 2020, assistido de baixo do banco dos passageiros do carro num drive-in. "O Soylent Verde é feito de pessoas!" foi uma frase que ficou para sempre na minha jovem consciência, e ainda penso nela quando me deparo com um produto alimentício impossível de identificar. Mas só consigo pensar em dois filmes que me mantiveram acordada depois de adulta: O Exorcista e A Bruxa de Blair. Ambos são centrados na trajetória de personagens dos quais gostamos e com os quais nos identificamos enquanto estes mergulham num mundo sobrenatural. Sua impotência e seus defeitos humanos diante de algo realmente malévolo sempre me causam impacto.

Joe Cornish, diretor de Attack the Block

Piquenique na Montanha Misteriosa foi um filme que me afetou muito na infância. Pensei que o filme seria idílico, mostrando moças jovens de vestidos bacanas durante um piquenique. Mas a obra é realmente inquietante e perturbadora. Trata-se de um grande exemplo de horror num ambiente externo e à luz do dia, e o filme usa a claridade para assustar. Não há nada explícito. Os efeitos são obtidos por meio do emprego da técnica cinematográfica. O filme torna a natureza assustadora, e eis aí algo de que não se pode escapar.

Larry Fessenden, diretor de Habit e Wendigo

O filme mais assustador que já vi foi A Noite dos Mortos-vivos. Uma implacável e crescente sensação de medo permeia todo o filme, conforme o horror se aproxima cada vez mais. Nenhuma das antigas regras é seguida: um após o outro, os personagens têm um fim sangrento independentemente do seu heroísmo ou do papel que desempenham na história.

John Sayler, roteirista de Grito de Horror

O filme mais assustador que já vi foi O Enigma de Outro Mundo, de John Carpenter, com efeitos especiais de Rob Bottin. O cinema estava lotado, e tive de me sentar na primeira fila para assistir.

Edgar Wright, diretor de Todo Mundo Quase Morto

Tenho memórias marcantes de quando assisti a uma versão sem cortes de O Enigma de Outro Mundo, de John Carpenter, aos 10 anos. Meu irmão e eu ficamos animadíssimos. As únicas imagens do filme que eu conhecia eram o pôster e uma foto mostrando Kurt Russel com uma lanterna.

Eric Red, roteirista de A Morte Pede Carona

A cena de O Exorcista em que uma menina fere a própria genitália com um crucifixo até sangrar, depois aproxima o rosto da mãe da ferida e então gira a própria cabeça 180 graus é sem dúvida a sequência mais transgressora de todo o horror americano. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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