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Os mestres da comédia italiana

Monicelli domina em números a programação da Caixa Cultural, que também tem Risi, Germi, Scola e outros

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

20 Abril 2011 | 00h00

Pode ser que a comoção causada pela morte de Mario Monicelli tenha a ver com a overdose de filmes do diretor na mostra Commedia all"Italiana, na Caixa Cultural. Não que ele não mereça. Monicelli foi um dos grandes no gênero que rima riso e lágrimas, porque a comédia italiana é sempre uma tragicomédia. Ao se suicidar, ele armou sua derradeira mise-en-scène e saiu de cena com estilo, provocativo e feroz.

Mas a verdade é que a Mario pode-se preferir Dino - o grande Risi, uma espécie de Michelangelo Antonioni do humor, que refletiu, como ninguém, em chave humorística, sobre a angústia existencial e a alienação dos sentimentos, temas essenciais da famosa trilogia da solidão e da incomunicabilidade que revolucionou a narração nos anos 1960.

Monicelli, Risi - e os outros. Em 1962, no ano em que Anselmo Duarte recebeu a Palma de Ouro com O Pagador de Promessas, havia jurados que, indiferentes aos autores que concorriam com ele - o Robert Bresson de O Julgamento de Joana d"Arc, o Luís Buñuel de O Anjo Exterminador, o Michael Cacoyannis de Electra, etc. -, queriam outorgar a Palma ao corrosivo Pietro Germi de Divórcio à Italiana. Marcello Mastroianni, num de seus melhores papeis, é Fefé, o aristocrata siciliano que, querendo se livrar da mulher, a transforma em adúltera, para poder abatê-la sem dó segundo o código de costumes vigente na ilha. O desfecho é surpreendente e consolidou, de cara, uma nova estrela, Steffania Sandrelli, a quem Germi ofereceu o papel principal de sua comédia seguinte, Seduzida e Abandonada, que também integra a programação.

São sete filmes de Monicelli, os longas Os Eternos Desconhecidos, A Grande Guerra, O Incrível Exército de Brancaleone, Brancaleone nas Cruzadas e A Moça com a Pistola; o média Boccaccio 70, cortado da versão internacional, quando o filme estreou nos cinemas; e o curta de Senhoras e Senhores, Boa Noite. Monicelli é, em números, o mais representad0 dos autores de comédias italianas, mas você também encontra Dino Risi (Uma Vida Difícil, Aquele Que Sabe Viver, Os Monstros e o episódio de As Bonecas), Germi (além dos citados, Confusões à Italiana, vencedor da Palma de Ouro); Ettore Scola (Falam-me de Mulheres e Nós Que nos Amávamos Tanto); Lina Wertmüller (Mimi Metalúrgico); Luigi Comencini (Pão, Amor e Fantasia). Este foi chamado, em 1953, de traidor do neorrealismo, por seu realismo róseo. Não traiu mais do que Vittorio de Sica com Ontem, Hoje e Amanhã e o média de Boccaccio - difícil é dizer em qual Sophia Loren é mais exuberante.

Visconti não considerava O Trabalho, seu episódio de Boccaccio, em que Romy Schneider cobra para fazer sexo com o marido, uma comédia. Fellini, sim, e Anita Ekberg, com aqueles seios, evolui na tela ao som de Bevete Piú Latte em As Tentações do Sr. Antônio. Isso nos permite falar de atores. A comédia italiana deve muito a Mastroianni, Vittorio Gassman, Nino Manfredi, Ugo Tognazzi, Alberto Sordi. A mostra abriga o lançamento de Commedia all"Italiana, coleção de ensaios organizada por Kelly Santos e Raphael Fonseca, primeiro livro sobre o assunto no País.

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