Os mesmos sons, para uma nova época Osesp e Municipal criam planos para a rede

Busca por modos alternativos de contato com o público está no cerne de projetos como o álbum-aplicativo 'Sonata Brasileira'

JOÃO LUIZ SAMPAIO, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2014 | 02h12

Na sala, dois pianos; na estante, duas coleções repletas de raridades, uma com partituras de diversas origens e épocas, muita música de câmera, Brahms, Beethoven; outra, com LPs, que cobrem um período de séculos de composição - e décadas de gravações de alguns dos principais artistas do século 20, pianista, cantores, violoncelistas.

Tudo isso parece em acordo com o que se espera da sala de casa de um pianista clássico. Mas é o tablet sobre a mesa de centro que hoje parece apontar caminhos para Antônio Vaz Lemes, autor do álbum-aplicativo Sonata Brasileira, já disponível para download no sistema iOS e, a partir do dia 25 de abril, também no sistema Android.

"A música clássica sempre olhou antes para a indústria do que a música popular, por exemplo. Os primeiros vinis eram eruditos! Temos muito conteúdo para expor, mostrar. Basta, agora, entender e se apropriar das plataformas trazidas pela tecnologia", diz o pianista.

O álbum-aplicativo traz peças de Camargo Guarnieri, Villani-Côrtes, André Mehmari e Marcelo Amazonas - as dos dois últimos, encomendadas especialmente para o projeto. Ao acessar cada peça, o ouvinte encontra conteúdo extra: áudios com análises dos compositores ou outros músicos; a partitura; fotos; e texto do compositor e professor Leonardo Martinelli, comentando as peças. A programação visual é de Nivaldo Godoy, as fotos, Marjorie Sonnenschein - e a narração ficou a cargo de um dos grandes nomes do piano nacional, Gilberto Tinetti.

"Não importa a época em que vivemos, o interesse das pessoas pelo belo persiste. A questão é que hoje o acesso à música é diferente. Trabalho com jovens e adolescentes, e o que percebo é que a música chega a eles pela internet, pelo celular, pelo smartphone, tem que estar disponível em três, quatro cliques. E, no que diz respeito aos clássicos, vejo que eles sentem a necessidade de mais do que o áudio. Querem ver fotos, vídeos. Depois que absorvem a música em si, se dão conta de que não precisam disso para entendê-la e aproveitá-la, mas todo esse material extra ajuda na aproximação com obras que são mais longas, exigem outro tipo de atenção."

No ano passado, Vaz Lemes participou de um outro projeto, iniciativa do Brasil Piano Masters, chamado Tribos e coordenado pelo pianista Hudson Souza. Ele e mais sete pianistas gravaram clipes para grandes peças do repertório clássico - buscando aspectos e cenários inusitados ou, ao menos, não comumente associados ao universo clássico.

Em seu vídeo, Antonio faz dialogar uma peça de Camargo Guarnieri com imagens de uma construção - e a obra foi indicada para melhor vídeo na 20.ª Mostra do Festival MixBrasil. Leonardo Hilsdorf, por sua vez, interpretou Stravinski em um piano instalado no hall da Estação da Luz - e, enquanto ele tocava, artistas de street dance criavam uma coreografia em tempo real. O Beethoven de Erika Ribeiro inspirava um universo de formas digitais que saíam de seu piano; o Debussy de Silvio Baroni era acompanhado da criação de grafites, por Chivitz; já Juliana D'Agostini e o rapper Projota criaram juntos uma versão para Rachmaninoff.

Todos os vídeos foram feitos para a internet e disponibilizados no YouTube. E o objetivo, expresso no site do projeto, era "democratizar o acesso da população à audição e apreciação de música erudita, formar plateias e desenvolver oportunidade de expressão para os excelentes pianistas brasileiros".

"O interesse que as pessoas demonstraram ao parar para curtir e tentar entender o que estava acontecendo, mesmo em um local onde a maior parte dos passageiros está sempre com pressa, apenas comprova o que eu acredito ser uma das teses que deram origem ao projeto: a música clássica é ainda relativamente pouco consumida porque não é acessível o suficiente", diz Hilsdorf, pianista de 25 anos.

Para ele, pensar maneiras de atingir novos públicos é um desafio para o pianista de hoje. Vaz Lemes concorda. Lembra que perguntou certa vez a Tinetti, seu professor, se em sua época também era tão difícil para um pianista jovem conquistar seu espaço. "Ele disse que não, não era tão ruim. Hoje, há muitos pianistas, e são excelentes. O desafio para mim é chegar no jovem. A música clássica olha muito para trás. É preciso hoje costurar uma estratégia de atuação no mercado que inclua a internet, o jovem. A tecnologia tem que ser um trunfo."

O uso da tecnologia tem estado na pauta de algumas das principais instituições musicais do País. No ano passado, além da transmissão ao vivo de concertos, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, por exemplo, lançou seu selo digital. E o Teatro Municipal deve colocar ainda este ano no ar seu novo site, investindo na produção de conteúdo específico para a rede.

A ideia da Osesp é colocar na internet, gratuitamente, gravações do grupo. Os contratos com gravadoras tradicionais estão mantidos. Mas o selo digital não apenas dá maior vazão ao que é feito na temporada, como, na opinião do diretor artístico Arthur Nestrovski, permite alcançar um público ainda maior. Foi por isso, ele explica, que resolveu, no ano passado, colocar álbuns dedicados aos compositores Aylton Escobar e Gilberto Mendes no site da orquestra (osesp.art.br) - e há quatro novos projetos previstos para 2014.

E os números são promissores. A comparação com vendas de CDs físicos precisa ser feita com cuidado, afinal, no site, o acesso às gravações do selo digital é gratuito. Mas, se considerarmos apenas os discos da orquestra lançados pela Biscoito Fino desde 2005, os números não fazem feio. Em quase dez anos, o grupo vendeu 36.600 discos; em apenas três meses, 5.863 downloads (ou seja, 16% desse valor) já foram feitos.

No Teatro Municipal, a inserção digital tem sido uma das apostas desde a chegada do maestro John Neschling à direção, no início de 2013. No horizonte, estão iniciativas como a transmissão pela internet de óperas e concertos. Mas isso é apenas parte de um plano mais amplo. "O Municipal é um bem público e a internet é, sim, uma maneira de divulgar o que fazemos, mas não só isso: é um canal também de comunicação com o cidadão. Estamos montando uma equipe dedicada a isso e alguns resultados já são visíveis, com uma ação ampla em redes sociais, por exemplo. E tudo isso vai desaguar na estreia do novo site, ainda este ano", explica o coordenador de comunicação da Fundação Teatro Municipal, Marcos Fecchio. "A fundação não tem apenas os concertos e óperas, há as escolas, e para cada aspecto de nossa atividade está sendo pensada uma maneira de existir digitalmente, com a produção de conteúdos específicos. Com isso, queremos deixar para trás um Municipal que não olha para fora de suas paredes." / J.L.S.

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