Os melhores ''Eruditos'' de 2009

Colegiado de 4 mil votantes distribuiu Troféu Carlos Gomes

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

07 de maio de 2010 | 00h00

Heitor Villa-Lobos e Lauro Machado Coelho. Estes foram os maiores vencedores da décima terceira edição do Prêmio Carlos Gomes de ópera e música clássica. A entrega aconteceu anteontem, na Sala São Paulo, entre árias líricas e peças orquestrais curtas -- a cargo da ótima Orquestra Sinfônica de Santo André, regida pelo sempre competente Carlos Moreno - e agradecimentos dos vencedores, com direito a uma carinhosa fala inicial da soprano Niza de Castro Tank, presidente da comissão organizadora do prêmio.

Machado Coelho, crítico e colaborador do Estado, ganhou o mais cobiçado prêmio da noite, o Troféu Guarany. Objetivamente, ele venceu por causa de 17 livros essenciais que modificaram nos últimos anos nosso modo de ver a música e, sobretudo, a ópera. Divulgaram o gênero que ele tanto ama, de modo a ampliar o público e garantir o futuro da ópera. Pela Editora Perspectiva, foram 11 títulos fundamentais de história da ópera: só à Itália, berço do gênero, foram 4 (barroca, clássica, romântica e pós-1870). E o antológico Shostakovich - vida e tempo, em 2006.

Nos últimos quatro anos, publicou outros cinco livros excepcionais pela Editora Algol. Primeiro trouxe a público intensas paixões secretas, como a notável antologia de poesia soviética (2007); em 2008, o segundo segredo até então bem guardado, o mais belo, luxuoso e comovente livro de 2008, Anna, a Voz da Rússia, sobre Anna Akhmátova, com direito a CD em que ela mesma recita seus poemas.

Finalmente, em 2009, Lauro escreveu, de um só fôlego, três biografias exaustivas e ao mesmo tempo deliciosas de se ler, de três grandes compositores de sua predileção: Hector Berlioz, Franz Liszt e Anton Bruckner. Pela capacidade e disciplina no trabalho; pela abordagem ampla e culturalista da música, fazendo-a integrar-se com a sociedade; e por uma escrita cristalina e ágil, além de rigorosa pesquisa - por tudo isso, Lauro Machado Coelho é o maior vencedor desta edição do Prêmio Carlos Gomes. Recebeu o prêmio, em seu nome, sua amiga mais leal, solidária e humana: Liz Coli.

Avatar da noite. Outra premiação justíssima foi a da primeira montagem mundial de A Menina das Nuvens, ópera de Villa-Lobos que inexplicavelmente permanecia inédita, realizada pelo Palácio das Artes, em Belo Horizonte. Foi o "Avatar" da noite, pois faturou cinco categorias: melhor espetáculo de ópera (crédito a Lúcia Camargo, presidente anterior da Fundação Clóvis Salgado); melhor iluminação para Paulo Pederneiras; melhor regente de ópera para Roberto Duarte, que está montando a orquestra do Teatro São Pedro; e melhor cantora solista, para Gabriella Pace. O quinto prêmio foi conquistado pelo melhor cenário, de Rosa Magalhães, carnavalesca carioca. É um belo exemplo de fertilização cruzada entre duas manifestações aparentemente distantes, que, no entanto, possuem afinidades.

Nas demais categorias, aflorou uma saudável nacionalização. O Quarteto de Cordas Radamés Gnatalli, do Rio, ganhou disputando com três grupos paulistas por seus concertos em 2009 com a integral dos 17 quartetos de Villa-Lobos. Previsivelmente, a Osesp venceu como melhor orquestra e André Heller levou o troféu de direção de cena em missão quase impossível: derrotou montagens plenas com um concerto cênico, no caso O Cavaleiro da Rosa, de Strauss.

Roberto Tibiriçá foi o melhor regente sinfônico por seu trabalho com a Orquestra de Heliópolis. Quanto ao barítono Rodrigo Esteves, os quase 4.000 votantes do prêmio, incluindo internautas, devem ter sido unânimes. Ele arrebentou em tudo de que participou em 2009: Alfio em Cavalleria Rusticana, Figaro em Il Barbiere di Siviglia, Faninal em O Cavaleiro da Rosa, e no CD A Canção da Terra, de Mahler.

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