Os meios e mitos do Sr. Segredo

Três lançamentos - dois deles já traduzidos no País - discutem o papel do australiano Julian Assange e do seu WikiLeaks, site que ganhou notoriedade por promover o vazamento de documentos secretos

John Cook, Bookforum, O Estado de S.Paulo

09 Abril 2011 | 00h00

Julian Assange, fundador do WikiLeaks e dono de uma cabeleira branca, já foi descrito em termos tão variados quanto os seguintes: vilão de filme de agente secreto, defensor da liberdade e furtivo guerreiro da informação nascido das páginas de um romance de William Gibson. E, à primeira vista, sua história parece conter todos os elementos de um suspense envolvente: grandes quantidades de documentos confidenciais, intriga internacional, sexo violento, agentes e ameaças de assassinato.

Com efeito, de acordo com a recente leva de livros a respeito do homem e sua cruzada contra os segredos governamentais, Assange cultiva assiduamente a ideia de sua própria presença dinâmica, inventando espiões da CIA à espreita em cada esquina e insistindo em empregar técnicas de contrainsurgência para despistar quem o seguia durante as caminhadas para o almoço em Berlim. Para aqueles que trabalham com ele, deixar o nome verdadeiro ao lado da campainha do apartamento é considerado uma infração.

O passado de Assange acrescenta a aura de mistério digna de histórias em quadrinhos. Na Austrália, ele passou boa parte da infância num lugar chamado Magnetic Island. Sua mãe ajudava a cuidar de um teatro de fantoches. Assange passou o início da adolescência em fuga, tentando escapar do abusivo marido dela, membro de um culto que convencia os pais a abrir mão da guarda dos filhos. Ao completar 17 anos, ele já estava invadindo os computadores do departamento de defesa usando a alcunha de Mendax, inspirado num verso das Odes de Horácio que elogiava o "esplendor ilusionista" (splendide mendax) de Hipermnestra.

Em outras palavras, The Strange Adventures of Julian Assange, the Man Who Killed the Secrets traz todos os marcos da maior história do jornalismo desde o Watergate, que deve render alguns livros e ao menos um par de boas adaptações para o cinema. Na verdade, diz-se que o estúdio DreamWorks teria manifestado seu interesse pela obra Os Bastidores do WikiLeaks (Inside WikiLeaks), o revelador livro de memórias do suplente renegado de Assange, Daniel Domscheit-Berg, e também pelo livro WikiLeaks - A Guerra de Julian Assange Contra os Segredos de Estado (WikiLeaks), dos jornalistas David Leigh e Luke Harding, do Guardian. Mas existe um pequeno problema: Julian Assange não fez nada. Não no mundo físico, ao menos. Os leitores de Os Bastidores do WikiLeaks, de A Guerra de Julian Assange e de um terceiro livro, Open Secrets, preparado pela equipe do New York Times, esperarão em vão pela cena em que Assange confronta uma fonte numa garagem sombria. E também pelo momento em que ele encontra a pista que soluciona o mistério. Ou até mesmo pelo momento em que ele faz um telefonema.

Eis o resumo que Domscheit-Berg faz das atividades da organização: "Apesar de estarmos todos equipados com telefones criptografados e de trabalharmos com as cortinas fechadas, e apesar de Julian transformar mentalmente os inocentes passageiros de um voo em espiões do Departamento de Estado, nós não passávamos de administradores, gerentes e porta-vozes - nada semelhantes aos verdadeiros combatentes digitais clandestinos. Éramos pessoas ocupadas em alugar servidores. Em lugar de solicitá-lo, comprá-lo ou obtê-lo nós mesmos por meio da invasão de arquivos secretos, nós esperávamos pela chegada do material". A principal contribuição de Assange para o que ele próprio descreveu muitas vezes como o maior vazamento de informações confidenciais de todos os tempos consistiu, essencialmente, em abrir os e-mails recebidos. Fora isso, a julgar pelo relato de Domscheit-Berg, os funcionários do WikiLeaks passavam a maior parte do tempo pesquisando o nome da organização no Google e participando de coletivas de imprensa.

Não se pretende com isso diminuir a genialidade da ideia de Assange por trás da criação do WikiLeaks, que foi essencialmente a eliminação dos repórteres e editores no processo da disseminação de informações delicadas. Apenas observamos que o relato de como ele o fez é notavelmente monótono, e que boa parte da mitologia de capa e espada que passou a envolvê-lo desde que o WikiLeaks começou a publicar centenas de milhares de documentos confidenciais dos departamentos de Defesa e de Estado para vários jornais no ano passado não passa disso - mitologia pura.

Domscheit-Berg era um engenheiro da computação e anarquista alemão que se juntou ao WikiLeaks como voluntário em 2007. Ele foi rapidamente promovido à posição de principal porta-voz do grupo, atuando essencialmente como suplente de Assange. Ele começa a história como um dos muitos membros de olhos arregalados da congregação de Assange e acaba como um amargurado e traído renegado. O relacionamento entre eles era complicado, caracterizado principalmente pela ansiedade de Domscheit-Berg na tentativa de afirmar-se perante Assange e pelo desprezo deste por Domscheit-Berg. Em termos típicos do ensino médio, Assange seria o garoto bacana e confiante para quem tudo chega facilmente; Domscheit-Berg seria o desajeitado servil que Assange mantinha por perto para comprar cigarros. A intensidade do desejo de Domscheit-Berg de ultrapassar os limites do estereótipo do anti-herói beira o patético. No início do livro, ele escreve: "Às vezes eu o detesto tanto que tenho medo de recorrer à violência física se nossos caminhos se cruzarem outra vez". Mas, quando Domscheit-Berg marcou o casamento para março de 2011, muito depois da deterioração de seu relacionamento com Assange, que passou a agir com crueldade em relação a ele, Daniel confessava: "Julian foi a primeira pessoa a quem contei... Não havia nada que eu desejasse mais do que a presença de Julian naquele momento". Após a separação final, Domscheit-Berg passou a levar o laptop consigo para toda parte, até mesmo no banheiro, na esperança de que Assange fosse pôr fim à briga por meio de um programa de bate-papo.

Os programas de bate-papo eram o principal meio de comunicação entre os dois. O Assange que emerge dessas conversas é autocrático, vaidoso, pedante, fanfarrão e totalmente inconsciente de si. Quando duas mulheres suecas acusaram Assange de assédio sexual - que o levou a uma prisão britânica; no momento ele aguarda o resultado de apelação da ordem de extradição para a Suécia -, a reação dele foi criticar a equipe do WikiLeaks por não fazer comícios de apoio ao grupo, por não arrecar dinheiro para arcar com os custos da defesa e por não produzir "documentos falsos" para que ele pudesse viajar sem ter de enfrentar as acusações.

Em si, os documentos que foram parar na caixa de mensagens do WikiLeaks não ocupam muito espaço no livro, estranhamente.Domscheit-Berg menciona casualmente que, quatro dias antes de o WikiLeaks publicar a primeira leva de 77 mil documentos sobre a guerra no Afeganistão, "não tivemos tempo para nos familiarizar com o conteúdo dos documentos. Este era o trabalho dos jornalistas". Trata-se de uma estranha atitude a se adotar diante de uma imensa quantidade de documentos confidenciais que apenas um punhado de pessoas em todo o planeta tem autorização para acessar.

Assange sem dúvida não enxergava a si mesmo como um homem que alugava servidores. Insistia em extravagantes preparativos de segurança e contava relatos não confirmados de tentativas de assassinato, colocando-se no centro de vastas teorias da conspiração antes mesmo de ter se tornado um nome conhecido. E depois de ter recebido um acervo de documentos dos serviços de espionagem vindos do Afeganistão, de relatórios de incidentes no Iraque e mensagens diplomáticas do Departamento de Estado em todo o mundo - quase certamente cedidos pelo soldado Bradley Manning, um analista dissidente do serviço de informações do exército que está agora numa prisão militar -, os jogos de espionagem se intensificaram. Ele começou a viajar acompanhado de guarda-costas, de acordo com Domscheit-Berg. Segundo o livro de Leigh e Harding, Assange se fantasiou de velhinha em novembro de 2010 durante viagem de carro de Londres a Ellingham, Inglaterra, para evitar algozes não identificados.

A obtenção desses documentos pareceu mudar a personalidade de Assange. Como demonstram todos esses livros, Assange não era especialmente zeloso e ciumento em relação a esse material. Mas o poder que tais documentos conferiam ao seu portador não foi ignorado por ele. Uma das maiores ironias da história de Assange é que o sucesso do WikiLeaks transformou o grupo precisamente naquilo que ele pretendia tornar obsoleto - uma instituição jornalística com os próprios objetivos definidos.

Quando debatemos o caso do WikiLeaks há um filme que costuma vir à lembrança: Os Três Dias do Condor, suspense de 1975 estrelado por Robert Redford. No desfecho, depois de desmascarar uma operação paralela e criminosa da CIA, Redford enfrenta um vilão da agência interpretado por Cliff Robertson diante do edifício Empire State. Robertson quer comprar o silêncio de Redford, mas é tarde demais: Redford já entregou a história completa ao Times. Redford dá as costas e se afasta, triunfante, mas o filme termina numa amarga dúvida quando Robertson diz a Redford: "Como pode ter certeza de que vão publicá-la?" Esse problema é precisamente um dos desafios que a criação do WikiLeaks buscava superar.

Quando o recém-nomeado assessor de imprensa da Casa Branca Jay Carney subiu à tribuna pela primeira vez em fevereiro, ele se viu diante de uma plateia formada por amigos pessoais de sua época de repórter a serviço da revista Time, além de colegas de sua mulher, que trabalha para a ABC News. Quando o New York Times citou em fevereiro uma frase de Barack Obama na qual ele chamava Ray Davis, um americano detido no Paquistão, de "nosso diplomata", os editores do jornal sabiam que aquilo não era verdade: Davis era funcionário da CIA, e não um diplomata - fato que o Times concordou em manter em segredo a pedido da Casa Branca. Alguma fonte tinha oferecido a informação ao jornal, provavelmente correndo com isso algum risco. E o Times não a publicou.

Eis que surge o WikiLeaks, que usou a tecnologia para driblar a esclerosada e comprometida classe jornalística. A máquina digital de Assange era quase automática. Fontes anônimas enviavam a ele o material que obtinham e, se os voluntários do WikiLeaks fossem capazes de confirmar a veracidade das informações, essas eram publicadas na ordem em que eram recebidas. Caso bem-sucedido, um sistema como esse poderia roubar do establishment jornalístico a autoridade de leão de chácara que guarda a fronteira entre o sombrio submundo dos segredos e a luz do dia.

Em vez de subverter esse poder, Assange tentou comandá-lo. Mas, a cada conjunto de documentos publicados, as relações se desgastaram cada vez mais. Na opinião de Assange, uma das instituições que mais precisavam de uma lição de "disciplina" era o New York Times. Quando o Times ousou se recusar a publicar um link para a página do WikiLeaks nas matérias sobre os documentos da guerra no Afeganistão, Assange telefonou para Bill Keller, editor executivo do jornal, para exigir "uma demonstração de respeito".

Até o momento, o WikiLeaks publicou cerca de 5 mil dos 251.287 documentos do Departamento de Estado que estão em seu poder. Faltam ser publicados mais de 15 mil documentos sobre a guerra no Afeganistão. Ele afirmou também ter informações financeiras capazes de "derrubar um ou dois bancos" e mantém perfis atualizados de cada prisioneiro de Guantánamo. Nada disso foi publicado. Manning, o provável responsável por entregar material a Assange, teria descrito seus motivos nos seguintes termos: "Hillary Clinton e milhares de diplomatas em todo o mundo terão um ataque cardíaco quando acordarem num belo dia e encontrarem um vasto acervo de documentos secretos da política externa disponível para consulta pública". No seu atual ritmo de publicação, Assange terá divulgado o conjunto completo dos documentos em cerca de 12 anos. Manning entregou todo esse material ao WikiLeaks. Eles não o publicaram. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

JOHN COOK É REDATOR DA REVISTA DIGITAL GAWKER E COAUTOR DE OUR NOISE: THE STORY OF MERGE RECORDS (ALGONQUIN).

JÁ COLABOROU COM A REVISTA DO NEW YORK TIMES, SLATE E LOS ANGELES TIMES

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