"Os Maias" traz obra de Eça de Queirós para a TV

A escritora Maria Adelaide Amaral convive com o universo de Eça de Queirós desde criança. Portuguesa de nascimento, conheceu sua obra aos 12 anos e conta que, por volta dos 18, já tinha lido tudo, "inclusive aqueles títulos desaconselhados para moças, como ´O Crime do Padre Amaro". Por isso, ela sempre se considerou a pessoa mais adequada para adaptar Os Maias para a televisão e é seu trabalho que a Globo começa a exibir a partir de terça-feira, às 22 horas, em mais uma minissérie nacional. "Só que a Glória Perez tinha proposto antes", conta a escritora. "Minha sorte é que ela desistiu porque resolveu escrever uma novela este ano."A adaptação começou em março do ano passado, quando Maria Adelaide terminou a minissérie A Muralha, outro trabalho de época, baseado no romance de Dinah Silveira de Queirós. "Li toda a obra do Eça, inclusive crônicas e sua correspondência, porque queria ser totalmente fiel a seu espírito e também à sua sintaxe", conta a escritora. "Foi mais trabalhoso que difícil porque a linguagem teledramatúrgica tem regras próprias. Incluí, por exemplo, tramas e personagens de outros dois romances, A Relíquia e A Capital, num núcleo de humor, fundamental em televisão."Para a autora, esta mistura pode desagradar admiradores mais ortodoxos de Eça de Queirós, mas o risco era necessário porque, para acompanhar o desenrolar do romance de Carlos e Maria Eduarda, o público precisa de pausas para respirar. Maria Adelaide entregou a tarefa de trabalhar nesses núcleos a seus dois colaboradores, João Emanuel Carneiro e Vincent Villari, que escreveram também A Muralha, e fez a edição final do texto.Voz de Eça - "Eles enriqueceram a história, mas eu escrevi os diálogos definitivos devido à minha intimidade com a sintaxe portuguesa, diferente da brasileira", explica. "O sotaque dos atores, no entanto, é brasileiro porque o público não entenderia o idioma falado em Portugal." Depois de cortes e fusões, chegaram ao incrível número de 52 personagens. Maria Adelaide decidiu também que a voz do escritor narra a trama (função entregue ao ator Raul Cortez). "É para o público não esquecer de que é ele quem conta a história", justifica.Depois de ler uma série de estudos sobre a obra de Eça de Queirós, a escritora e o diretor Luiz Fernando Carvalho viajaram para Portugal, onde encontraram conhecedores ilustres do autor, como Carlos Reis, diretor da Biblioteca de Lisboa. Visitaram também os cenários onde a história se desenvolve. "Assim, viramos Lisboa de cabeça para baixo, estivemos em Sintra, Leiria, Coimbra, Porto e Douro, onde a quinta da família foi transformada na Fundação Eça de Queirós", conta Maria Adelaide. "Fomos ainda à Vila do Conde e Póvoa do Varzim, onde o escritor nasceu e foi batizado."O estilo de Eça de Queirós, especialmente neste romance, facilita a adaptação e atrai o público. "Trata-se, na verdade, de um melodrama deliciosamente bem escrito, com um pano de fundo realista, que retrata impecavelmente a sociedade e os vícios morais portugueses no século retrasado", adianta a escritora. "Essa junção de melodrama com realismo agudo torna o romance tão envolvente. Estou certa de que o público vai amar e, espero, que compre o livro correndo." Maria Adelaide conta que não foi influenciada por Eça como escritora, mas adquiriu um olhar semelhante ao analisar pessoas e fatos, especialmente da realidade portuguesa.Para a escritora, Os Maias retrata a sociedade portuguesa do século 19 por meio de situações que cercam os personagens. Como o universo do romance é masculino e o público de televisão é feminino, Maria Adelaide decidiu ampliar alguns papéis vividos por mulheres.

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