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Os logrados

O golpe da rainha-mãe fracassa e o poderoso ministro Richelieu fica com o apoio do rei

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2021 | 03h00

O ano de 1630 foi de muita ansiedade na França. Ao sul, além dos Pirineus, a Península Ibérica inteira era governada por Filipe IV, Habsburgo. Do outro lado do Reno, o Sacro Império, encabeçado por Fernando II, também pertencia àquela família que fazia, assim, um “anel de ferro” ao redor do território francês. 

O risco de “sufoco geopolítico” era agravado pela Guerra dos 30 anos (1618-1648). Protestantes e católicos travavam um conflito que chocou o mundo pelo número de mortos e pela violência extrema nos domínios germânicos. Estavam em jogo a supremacia religiosa, o aumento do poder imperial e o crescimento de uma força insuportável para a política externa francesa. Temendo tudo isso, o governo do poderoso ministro Richelieu fornecia recursos para os rebeldes protestantes. A lógica política superava escrúpulos religiosos. 

Problemas fora e dentro do reino: apesar da tolerância religiosa decretada pelo rei Henrique IV, em 1598, a França continuava com uma maioria católica e um grupo forte protestante (huguenotes). O cardeal-ministro teve de atacar posições fortificadas dos reformados. O Estado francês queria evitar que os huguenotes formassem um Estado dentro do Estado, algo perigoso para um porto fundamental no Atlântico como La Rochelle, que poderia receber auxílio de reis como Carlos I, da Inglaterra. O porto foi sitiado e bloqueado e grande parte da população morreu de fome. A Coroa francesa venceu no campo de batalha, porém confirmou a liberdade religiosa. Protestantes sim, porém sem exércitos próprios ou portos livres. 

O rei da França, em 1630, nosso ano em questão, era Luís XIII. Subiu ao trono aos 9 anos de idade, quando seu pai, Henrique IV, foi assassinado por um fanático religioso. Incapaz de assumir plena consciência do poder que caiu em seu colo com a morte do pai, a criança foi controlada pela mãe, Maria de Médici. A França já conhecia uma célebre conspiradora-rainha: Catarina de Médici.

Um rei fraco controlado pela mãe. Uma rainha-mãe italiana astuta e vista com desconfiança por ser estrangeira e por suas ligações com outros conterrâneos como Concino Concini. Um cardeal ambicioso e quase modelo de política realista. Ainda não falei da esposa de Luís XIII: espanhola e, como tal, originária de um país inimigo. Personagens fascinantes em um palco de conflitos externos e lutas intestinas: que enredo temos pela frente! Alexandre Dumas percebeu tudo ao fazer Os Três Mosqueteiros (1844).

Já que o grande público ama o fato específico mais do que as estruturas em transformação, vamos a um. O jogo do poder na corte estava em grande limite de tensão. Vamos acrescentar um fato no final do ano de 1630: uma epidemia de peste se alastra pela França. O rei sofre com dor de dentes, febres e uma disenteria insistente. Teme-se pelo futuro da Coroa. Chegou a receber a extrema-unção no dia do seu aniversário. Os grupos em conflito, especialmente o cardeal e a rainha-mãe, usam de todos os recursos para tomarem o poder na eventualidade da morte do segundo Bourbon. No outono de 1630, o rei recupera a saúde. 

A cena seguinte ocorre no palácio de Luxemburgo, em Paris. O rei imagina poder ir a Versalhes, na época um pavilhão de caça modesto em comparação ao que o Luís seguinte construiria ali. A Médici quer evitar a presença do cardeal no Conselho e ordena aos guardas que fechem as portas. Maria fica com o filho e ataca o cardeal. Este, em um gesto ousado, entra por uma porta secreta e faz uma cena dramática diante do rei. Pergunta se estão falando sobre ele. Ela está furiosa e ataca Richelieu. O prelado se ajoelha e beija a bainha do vestido da rainha que continua vociferando. O rei fica impressionado com a cena: a mãe parece descontrolada, o cardeal assume tom humilde e dedicado ao serviço da Coroa. Freud teria algo a dizer? Era domingo, 10 de novembro de 1630.

No dia seguinte, no seu pavilhão em Versalhes, Luís XIII recebe a visita do cardeal que faz novas promessas de submissão e de afeto. O rei decide afastar os ministros e políticos ligados à rainha-mãe. O golpe da mãe fracassou. Os aliados dela (como o marechal François de Bassompierre e Michel de Marillac) são presos. O filho preferido de Maria, Gastão d’Orleans, foi para uma corte rival. A vitória do ministro é total. Guillaume Bautru, conde de Serrant, classificou o dia como “journée des dupes”. A palavra exata poderia ser escolhida entre dia dos ingênuos, jornada dos logrados, mas “dupe” inclui a ideia de idiota, enganado ou tolo. O termo de Bautru passou à história: quem foi tosquiar saiu tosquiado, o plano de derrubar Richelieu arrasou com o grupo da rainha-mãe e o cardeal ficou com o apoio total do rei. Armand Jean du Plessis, nome de batismo do ministro, passou à história como astuto, maquiavélico e vitorioso na afirmação do poder real e na condução da política externa da França. Dumas fez um retrato terrível dele e uma construção romântica da esposa de Luís XIII. Uma visão mais objetiva diria que uma rainha que favorecia a espionagem espanhola na corte francesa e trocava correspondência com os inimigos ingleses era alguém que estava mais próximo da Bastilha do que do panteão romântico. 

E o povo? Teve impostos (como a gabela, sobre o sal) aumentados muitas vezes. Aumentou a miséria na França. A pergunta sempre fica: a “razão de Estado” é boa para a população em geral? Onde estariam os verdadeiros “logrados”? Tenho esperanças de que, um dia, mude a resposta óbvia até aqui.  

É HISTORIADOR, ESCRITOR, MEMBRO DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS, AUTOR DE ‘A CORAGEM DA ESPERANÇA’, ENTRE OUTROS

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