Os livros proibidos durante o regime

Se existe hoje um movimento editorial para resgatar o que se passou no Brasil nos anos 1960 e 70, o que se via antes, quando o País vivia sob o regime militar, era um esforço para fazer circular as obras escritas no calor da luta. Esse foi o tema da pesquisa de Sandra Reimão, que chegará ao público em dezembro com o lançamento de Repressão e Resistência - Censura a Livros na Ditadura Militar (Edusp/Fapesp).

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2011 | 03h08

A autora fez amplo levantamento bibliográfico, consultou material de época e entrevistou escritores que sofreram, a partir de 1970, com aos pareceres do Ministério da Justiça e de seu Departamento de Censura e Diversões Públicas (DCDP). Ela encontrou pelo menos 70 obras de autores nacionais vetadas e analisou os dois casos mais emblemáticos - Zero, de Ignácio de Loyola Brandão, e Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca, proibidos há 35 anos.

Em 1970, 5 dos 25 livros submetidos à análise foram vetados. Com o tempo, o cerco foi se fechando e o número chegou, em 1975, a 109 proibidos para 132 submetidos.

Ricamente ilustrada com as capas das obras censuradas, o decreto-lei 1.077, que instituiu a censura no Brasil, os pareceres, até então inéditos em livro, do Ministério, as cartas enviadas pela sociedade civil de repúdio à ação do órgão ou pedindo o recolhimento de títulos, e a lista de tudo o que foi proibido complementam a publicação.

Erico Verissimo e Jorge Amado lideraram o movimento de resistência e orientavam os autores a não submeterem seus livros. Esta, no entanto, não foi a lição que Sandra Reimão tirou do trabalho: "Os escritores foram importantes, mas sempre existiram os pequenos editores que publicavam os livros mais arriscados, o livreiro que mantinha a obra censurada na prateleira e os leitores que continuavam comprando e, com isso, preservando a dignidade do cotidiano", diz.

"Atenção a este livro, ministro". Mino Carta leu essa frase de relance num bilhete que acompanhava o Zero na mesa do ministro Armando Falcão. No dia seguinte, veio a notícia da censura. Loyola consultou então o censor do jornal em que trabalhava e descobriu, para sua tranquilidade, que ironicamente havia sido proibido por motivo "moral". Já não corria o risco de ser preso. "Mas fiquei muito magoado porque dediquei nove anos ao livro", conta. O autor, hoje colunista do Caderno 2, do Estado, diz que Zero já vendeu cerca de 800 mil exemplares. Uma edição comemorativa foi lançada pela Global este ano.

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