RICHARD AVEDON/DIVULGAÇÃO
RICHARD AVEDON/DIVULGAÇÃO

Os Kennedys, pelas lentes de Avedon

Mostra com retratos da família do ex-presidente dos EUA feitos por famoso fotógrafo oferece um estudo do poder

Stephanie Merry, O Estado de S.Paulo

16 de janeiro de 2011 | 00h00

Cinquenta anos depois, a mística da família Kennedy persiste. Isso fica claro quando se visita uma nova exposição de retratos da família pelo famoso fotógrafo de moda Richard Avedon. Os visitantes de museu atiram-se sobre o glamour eterno de Jackie num vestido de seda Givenchy, enternecem-se com imagens do sorriso doce da pequena Caroline e ainda se maravilham com a atitude firme e imponente do 35.º presidente. Seguem-se sem demora, com certeza, discussões de baby boomers sobre onde cada um estava quando ouviu a notícia.

Mas a pequena mostra de nove fotografias em cartaz no Museu Nacional de História Americana até 28 de fevereiro, The Kennedys 50 Years Ago, faz mais que recordar o encanto aparentemente irresistível de Camelot, que era uma ilusão, afinal. As imagens em exposição oferecem um estudo de poder e controle, um olhar sobre se é o homem por trás da câmera ou o que está posando à sua frente que está no comando do espetáculo.

Entre a eleição de John F. Kennedy em 1960 e a sua posse no mês de janeiro seguinte, Avedon visitou o que se tornara a primeira família na Flórida para tirar fotos para Harper"s Bazaar e Look Magazine. Avedon, que morreu em 2004, não foi estranho a indivíduos poderosos em vários círculos. Sua prolífica carreira incluiu retratos de Ronald Reagan, Audrey Hepburn, Salvador Dalí e dos Beatles. Algumas dessas fotos (e outras admiráveis 250) fizeram parte da exposição Corcoran"s 2008 da obra de Avedon, e visitantes dessa mostra reconhecerão o mesmo estilo direto nas imagens de Kennedy - preto e branco com fundo liso e borda preta mais poses diretas e expressões um tanto vazias.

Além da abordagem particular de Avedon, o que é imediatamente notável é o cuidado com que o futuro presidente mantém sua expressão decidida. Kennedy parece quase de madeira, às vezes mantendo um olhar cansado que é cálido, mas contido, obtido com um leve estrabismo combinado com o vago fantasma de um sorriso. Antes da permanência no noticiário se tornar parte do idioma político, Kennedy parece estar fazendo exatamente isso, oferecendo uma visão digna, controlada de si mesmo, seja posando atrás de uma naturalmente elegante Jackie, seja segurando Caroline no colo, os braços envolvendo seu corpo esguio.

Mais reveladora é uma folha de contato de Avedon - uma chance de ver o que o fotógrafo viu, e na qual há uma gama mais ampla de emoções à mostra. Numa foto, o presidente eleito olha diretamente para a câmera, rindo como se o fotógrafo tivesse acabado de contar uma piada. Outra capta Kennedy estendendo a mão cuidadosamente na direção de John-John que Jackie segura nos braços, enquanto uma foto diferente mostra o presidente com a guarda abaixada, sorrindo com os olhos semicerrados. Agora nós vemos o poder que Avedon tinha. Ele fez um conjunto de fotos, mas a imagem de Kennedy se alinha com a persona que o 35.º presidente deu duro para criar.

Mas, a despeito de todos os esforços de Kennedy, talvez seja Caroline que rouba o espetáculo. Uma foto emblemática, brilhantemente enquadrada por Avedon, se destaca das demais. A menina de 3 anos ocupa o centro da foto trajando um vestido branco de babado. Ela está ao lado do pai, que está quase fora do enquadramento com a exceção de uma ponta de seu terno e de sua mão direita, estendida e suavemente apoiada sobre o ombro da menina. Quando a revista chegou às bancas, o fator simpatia foi quase certamente alto com essa imagem adorável. Apesar de seu rosto de bebê, Caroline parece carregar um saber além de sua idade. Ela parece quase melancólica. A doçura da foto se mistura como uma espécie de tristeza.

Essa pode ser a mensagem mais intrigante da mostra. Por mais cuidadosamente que um fotógrafo ou um sujeito tente orquestrar a cena, o significado de uma imagem muda com o tempo e depende, em última instância, de quem a contempla. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

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