Os Jones, família por contrato

Em 1970, Richard Brooks escreveu e dirigiu um de seus grandes filmes - The Happy Ending. Satirizando os finais felizes típicos da produção de Hollywood, ele contou a história de um casamento em crise. No Brasil, seu filme se chamou Tempo para Amar, Tempo para Esquecer. Numa cena, Lloyd Bridges explicava a Shirley Jones a importância do casamento. Quando as pessoas se casam, querem casa, que precisam equipar. Independentemente do afeto, portanto, ele é importante como fator de aquecimento da economia. Se a família pode ser considerada a célula máter da organização social, o casamento é a pedra de toque do capitalismo.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

29 de dezembro de 2010 | 00h00

Passaram-se 40 anos e a visão premonitória de Brooks ganha agora uma versão mais cínica - o que o filme antigo não era. Lloyd Bridges e Shirley Jones, ambos maduros no filme de Brooks, se unem por amor, apostando na consciência e no afeto paras impedir que seu casamento fracasse, como o de Jean Simmons e John Forsythe. A nova versão - apenas parcial, não se refere ao filme todo - chama-se Amor por Contrato e está em cartaz nos cinemas desde sexta-feira. No original, é The Joneses, Os Jones, designando a família que está no centro do relato. Quando o filme começa, os Jones estão chegando em seu novo domicílio. Foram precedidos por caminhões de mudanças, que já despejaram na vizinhança chique toneladas de supérfluos - de carros a eletrodomésticos de última geração.

Chegam papai e mamãe, interpretados por David Duchovny e Demi Moore, mais o casal de filhos, que inclui a sexy Olivia Wilde, de Tron - O Legado. Logo de cara fica evidente que os Jones não são uma família como as outras. Papai despede-se sem nem um beijinho - daquela mamãe! - e vai dormir em quarto separado. Na calada da noite, a câmera acompanha um par de pernas de mulher, que vai sendo despido dos pijamas, da calcinha, vapt-vupt para uma cama, acendem-se as luzes e é... a filhinha na cama paterna. Mamãe não parece particularmente abalada pelo que se constitui em incesto - ou não? Os Jones, realmente, não se constituem numa família. O título brasileiro, Amor por Contrato, entrega o ouro. Trata-se de uma falsa família formada por vendedores habilidosos. Eles estão ali, naquela vizinhança em particular, para despertar nos vizinhos endinheirados, o desejo consumista por tudo aquilo que ostentam.

Derrick Borte é o diretor - um estreante. Nascido na Alemanha, ele vive desde garoto nos EUA. Com o irmão, correu mundo como surfista. Adulto, virou designer de surfe - ei-lo agora convertido em diretor, além de produtor da própria comédia romântica de humor negro. Pois é essa mistura um tanto improvável que ele tenta harmonizar. O filme critica o consumismo dos tempos modernos, no mundo globalizado. A falsa família ensaia movimentos de aproximação, mas seus integrantes estão demasiado preocupados com seus problemas pessoais e boa parte deles envolve as chamadas "questões sexuais". A filha impulsiva (lésbica?), o pai que quer mesmo fazer sexo com a mãe, o filho... É melhor deixar que o próprio espectador descubra as pulsões de cada um.

Amor por Contrato tem um ponto de partida realmente interessante, mas o diretor Borte não leva sua premissa ao limite ou, então, o formato comédia romântica termina por predominar sobre o humor negro. No final, quando o mundo dos Jones implode - e eles são expostos como uma família de fachada -, Borte dá marcha ré e propõe uma solução de compromisso. Pura diluição. Até chegar lá, Amor por Contrato tem coisas interessantes, a começar pelo elenco. David Duchovny, de Arquivo X e Californication, é viril sem ser agressivo e a obsessão sexual soa genuína. Demi Moore continua valendo qualquer proposta indecente. Seja o que for que esteja fazendo para deter o tempo, dá resultado.

AMOR POR CONTRATO

Nome original: The Jonses. Dir.: Derrick Borte. Gênero: Comédia (EUA/2009, 93 min.).

Censura: 14 anos.

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