Imagem Lúcia Guimarães
Colunista
Lúcia Guimarães
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Os invertebrados

Apenas uma cueca branca, um par de botas e chapéu de caubói cobriam o corpo do homem tocando violão. Na calçada da 5ª Avenida, o personagem conhecido em Manhattan como Naked Cowboy posava com turistas e distribuía cartões de visita. Seus glúteos musculosos sacudiam o nome Trump pintado nas cores da bandeira americana atrás da cueca.

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

10 Outubro 2016 | 02h00

O Naked Cowboy é uma figura popular em Times Square, onde é visto com a condescendência reservada a palhaços de rua. Mas, na porta da Trump Tower, no sábado, pisando no chão onde o metro quadrado faz desta ilha uma das mais caras do planeta, o homem seminu demonstrava aprumo além de sua coluna ereta. Mais do que a coragem de expor o corpo, ele expunha a ausência de espinha dorsal dos homens e mulheres que representam quase metade dos norte-americanos.

Lacaios como o governador de Nova Jersey Chris Christie, o ex-prefeito de Nova York Rudy Giuliani e o presidente do Partido Republicano Reince Priebus usaram entradas laterais para se juntar ao candidato-Titanic. Tentaram, em vão, convencer Donald Trump, de que o vídeo de 2005 em que ele descreve casualmente assalto sexual ia requerer a primeira desculpa da sua vida. E também uma desculpa à mulher, Melania, que estava grávida de seu filho na ocasião. Tiveram que se consolar com uma desculpa insincera abreviada pela partida para o ataque.

Como um rejeitado fora de controle que telefona para a ex-namorada tarde da noite, Trump publicou, em sua página do Facebook, à meia-noite, o que pensou ser um vídeo para sufocar o escândalo. Começou com “nunca disse que sou perfeito.” (Disse, sim, no Twitter, “Eu me considero perfeito demais, não tenho falhas”) E mudou de assunto, acusando Bill Clinton, que não é candidato a nada, de abusar de mulheres.

Depois que o vídeo em que Trump se vangloria de agarrar mulheres pela vagina vazou, na sexta-feira à tarde, houve o estouro da boiada. Um a um, deputados, senadores e governadores republicanos começaram a pular do barco trumpista.

Richard Burr, da Carolina do Norte, que preside o comitê de Inteligência do Senado, disse que ia esperar o “nível de contrição” demonstrado no debate de domingo. O ex-candidato presidencial de 2008 John McCain, tuitou: “Não há desculpa para o comportamento ofensivo de Trump” e declarou que não vai votar nele. Trata-se do ex-piloto da Marinha barbaramente torturado por norte-vietnamitas quando seu avião foi derrubado, em 1969, que passou quatro anos como prisioneiro de guerra. Logo no começo da campanha, Trump, que fugiu do alistamento no Vietnã, ridicularizou o status de herói de guerra de McCain, dizendo: “Prefiro gente que não foi capturada.” Ainda assim, McCain decidiu apoiar o candidato preferido da Ku Klux Klan e de neonazistas.

Não resta mais dúvida de que o Titanic Trump vai afundar candidaturas na eleição de 8 de novembro: 34 dos 100 assentos do Senado, 435 dos 535 da câmara e 12 postos de governador em 50 estados e 5 territórios estão em jogo. O apoio a Trump por gente que teria ânsia de vômito ao apertar sua mão tem parte de sua origem na decisão de 2010 Suprema Corte que liberou o financiamento de campanha por corporações e sindicatos.

A decisão, conhecida como Citizens United, matou boa parte da cooperação bipartidária. Os Republicanos hoje morrem de medo de perder primárias eleitorais à direita financiadas por extremistas. Isto explica, por exemplo, como políticos que acreditam em ciência fingem que a mudança de clima não existe, por temor de um desafio dos niilistas da direita norte-americana. Eles foram gestados e paridos pelo Partido Republicano, defensor do poder ilimitado do dinheiro na política.

Os protestos de ex-aliados contra Trump, depois de um ano e meio de insultos e barbaridades, não passam da reação de invertebrados diante do candidato flagrado confessando que fez o que dizia que era normal fazer.

Mais conteúdo sobre:
Crônica O Estado de S. Paulo

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.