Os intestinos expostos do Arte/Cidade

Diante das formas intestinais, viscerais e brutalistas, que sobem se agarrando à fachada desgastada pelo tempo do edifício do Sesc Belenzinho (como em visão rebelada de um Centro Pompidou do Terceiro Mundo), de autoria de Avery Preeman, do Surinam, está dada a marca da força de Arte/Cidade, para doer a quem tiver a coragem de vê-la em todos os seus locais. Para mim, os eventos mais marcantes nos anos 90 neste país como manifestações contemporâneas foram, sem dúvida, as três edições de Arte/Cidade (1994, 1995 e 1998). Este ano (muito mais eloqüente que uma Bienal, enfadada e/ou esotérica com ênfase em vídeos, design, arquitetura e ruidosas artes visuais), acontece a quarta edição desse evento sensível a nossas hemorragias, letais para um país que deveria se preocupar com sua qualidade de vida. Idealização de Nelson Brissac, ele propõe "intervenções urbanas", artistas realizando interferências no tecido urbano da zona leste de São Paulo, ou melhor, Brás, Belém, Pari, Sesc Belenzinho. Empregando cerca de 100 pessoas para a montagem e execução dos projetos de autoria de 25 artistas (estrangeiros e brasileiros), em evento que está custando cerca de R$ 2.500.000 em patrocínio, além de uma parte em doação de materiais, ele remexe no lixo da cidade. Na deterioração da megalópole. Toca nas feridas dos espaços abandonados e esquecidos. Encosta e altera - sem a preocupação de reconstrução - algumas das áreas mais espantosamente degradadas da maior cidade da América Latina. É assustadora a visão da cidade a partir dos espaços em que atuam os artistas convidados. Se para Anselm Kiefer a visão apocalíptica de São Paulo foi inspiradora para uma série soturna de obras, este Arte/Cidade 4 é um grito. Pode não trazer nenhuma resposta urbanística ´assepticizante´, mas é indubitavelmente um brado assustador. Só possível de ser ouvido por aqueles que tiverem a coragem, o tempo e o interesse de percorrer os locais selecionados pelo realizador para a intervenção dos artistas. Falo de uma cidade desprovida de projeto urbanístico. Me refiro a São Paulo, entregue a seu próprio destino de luxo e miséria, grandeza e exclusão, da riqueza mais inaudita frente ao desespero dos perdidos que se grudam na grande urbe. Insistem em sugar o pouco que seus detritos lhes oferecem para continuar a sobreviver sem regressar a suas origens (de outros centros menores deste país-arquipélago). Uma cidade onde a onipotência dos poderosos do universo da cultura parece dominar, impiedosamente, e onde os arquitetos aparentam ser dotados de vara de condão que altera os comportamentos - pensam eles - e no entanto, sua ação, e a vontade política dos nossos dirigentes parece inexistir nesta aranha-megalópole que cresce sem cessar e se espalha com absoluta falta de planejamento urbano ao longo de décadas. Em sua faina diária pela sobrevivência, troquei algumas palavras com uma mulher, Maria, com as mãos sujas e descalça, em meio ao lixo do lúgubre ambiente de excluídos sob o viaduto na praça do Glicério, a separar papéis comuns de papéis higiênicos usados, colocando-os em enorme saco plástico para revenda por peso. Indiferente à construção que se ergue a seu lado sob o viaduto, de autoria de Vito Acconci, que concebeu dois contêineres, um com banheiros e tanques para uso da população de moradores de rua das redondezas e outro com equipamento televisivo para lazer desses mesmos moradores (ao lado do viaduto há um albergue que hospeda moradores de rua para a noite). Ao mesmo tempo, fica no ar a indagação: quem cuidará da manutenção desses equipamentos após o encerramento da iniciativa Arte/Cidade? Poder - 25 artistas realizaram projetos. Desses projetos, numa cidade tão espantosa, descuidada em grande parte de seu território imenso, horrenda em sua fascinante atração, sem espacialidade preservada, porém mágica em seu poder energético, com uma população desempregada de cerca de 2 milhões, aproximadamente, indiferentes a esses dados, 15 artistas optaram por projetos que poderiam estar sendo apresentados em galerias de arte, museus, documentas, parques ou bienais. Apenas dez apresentaram projetos que evidenciam uma preocupação com o social, com o choque com o entorno humano e urbano, à flor da pele na área delimitada. Desses dez, apenas três são de brasileiros: Grupo Casa Blindada, Carlos Vergara e Dias-Riedweg. Os primeiros fazem proposta irônica de "design" de "camas-armários" para os quitinetes do Edifício São Vito, um cortiço vertical de 27 andares; Carlos Vergara ocupa - com interrogantes sobre o futuro do espaço - o camelódromo que não vingou na erma praça da Estação Brás, abandonada aos vendedores de cigarros contrabandeados e drogas (conforme a hora da noite, e da madrugada, antes da sopa servida ao lado do albergue sob a estação do metrô, às 6 da manhã) e quase ao lado do Largo da Concórdia, onde diariamente fervilha um camelódromo natural e não "produzido"; Mauricio Dias e Walter Riedweg, nesse mesmo Largo da Concórdia fizeram vídeos gravados com cerca de uma dezena de camelôs falando de suas vidas e seus produtos. É grave: de 15 brasileiros presentes ao evento, apenas 3 se preocupam com o entorno urbano e social. Os demais, se limitam a criar propostas que poderiam estar situadas em outro espaço qualquer. Qual é hoje o lugar da arte? É o que venho abordando desde inícios dos anos 80 com mais ênfase. Qual é a função do artista? Dizia Mário de Andrade - em texto que li há pouco graças a Abilio Guerra - que se de 100% dos artistas apenas 1% é genial, os 99% que não o são deveriam colocar sua criação a serviço da sociedade. É uma posição. Que pensar hoje quando a tecnologia, de alto custo, também está em jogo quando o artista concebe um trabalho? Como aceitar que aos estrangeiros choque mais nossa realidade que aos brasileiros, já anestesiados diante da miséria, do sexo, da droga, do tráfico banalizados como lugar-comum? Não é uma barbárie que isso ocorra no meio infelizmente luxuoso das artes e dos patrocínios? Daí porque interessa ver a intervenção dos arquitetos holandeses (Paul Meurs e Tom Matton) que transformaram o antigo cinema Piratininga, na Avenida Rangel Pestana, em parque urbano para fruição da população residente em seu entorno. Utópico, quiçá, porém respeitável como projeto. Como esquecer depois de vê-lo, o Pátio do Pari, uma não-área, esquecida pelas municipalidades e que poderia ser local de lazer da população da cidade, alvo que um paisagista sensível poderia ter transformado em espaço aprazível para vendas e exposição de mercadorias - legumes, plantas e frutas -? Como borrar da memória visual o belíssimo edifício de 1891 (do ex-setor de Finanças da Refesa), situado como uma entidade miraculosa em meio a esse ambiente miserável, de vagões quase empilhados, um edifício que orgulharia qualquer cidade da Europa ou Estados Unidos, invejável como espaço expositivo, educativo ou de lazer, com seus pilares importados em ferro? Esquecendo um pouco os artistas que fizeram "o seu trabalho", alguns realmente provocantes, quase como em seqüência à sua produção individual, percebi, ao percorrer alguns dos locais de Arte/Cidade 4, que as intervenções que mais me interessaram por instigantes, foram aquelas de preocupação com o entorno social, em geral projetadas por estrangeiros que responderam com vivacidade às carências e "desastres urbanos" observados. Confronto - Dei-me conta também de que Arte/Cidade 4 não é um evento cujo objetivo seja sua data de "abertura". É, antes, um projeto cujo processo é "o projeto": do confronto, da negociação, do desgaste para a obtenção dos meios, das autorizações necessárias, do embate prolongado e paciente com os poderes constituídos (caso de Koolhaas, no episódio do elevador para o Edificio São Vito), da burocracia que não se entrega, ou concede, das flexibilizações alcançadas ou impossíveis de atingir (caso das possibilidades de construção de cinco infoboxes, concebidas pelo ateliê de Van Lieshout), dos percalços para a atuação da engenharia de Ari Perez nas diversas instâncias para a realização de cada intervenção, e até no processo árduo (e quase impossível) de possibilitar a visitação dessas intervenções por um público hipotético. Como justificar então o patrocínio a tal iniciativa se nem a um público determinado ela é acessível? Pelo brado. Em sua introdução ao projeto, Nelson Brissac aborda a escala urbana dos megaprojetos vigentes hoje em dia no mundo ocidental, mencionando a impossibilidade de se "conceber projetos para o espaço urbano sem considerar essa nova grande escala". Menciona também o "surgimento de grandes projetos urbano-arquitetônicos promovidos pelo capital internacional", e acho que esta afirmação é por certo referente ao que se fez na grande área de Potsdammer Platz, em Berlim. Ora, Berlim é Primeiro Mundo, e São Paulo como a Cidade do México, Nova Délhi, Rio de Janeiro ou Caracas, somos Terceiro Mundo e disto não sairemos nunca. Não creio que Artecidadezonaleste se proponha, como ele diz, a "discutir novas estratégias urbanas e artísticas de intervenção em megacidades". O que diferencia uma megacidade de Primeiro Mundo de uma megacidade do Terceiro Mundo? Pelas notícias que acompanhamos pelos jornais, de Guantánamo e Afeganistão, ou Oriente Médio, por exemplo, creio que é a cor de nossa pele e nossa procedência, as duas coisas juntas. É a dignidade do cidadão de primeira classe e a pouca valia do cidadão de segunda classe (intervenção urbana no Primeiro Mundo talvez seja Rothko poder realizar a capela ecumênica de Houston). Já, aqui, há tanta coisa básica à frente a implantar... Grito - O que pode ser alcançado, através desse projeto audacioso, é o grito. E para ouvi-lo, tentar levar (em vans, em kombis, no que for) um público bem amplo a ver com seus próprios olhos o choque da miséria, sem banalização, através das intervenções por artistas. Sem filosofias ou retórica. Apenas frente ao estado de abandono desta cidade que clama por reerguimento. Esse caráter da zona dominada pelo "informe e o indeterminado", como diz Brissac, é "tudo menos um território vazio e inerte. Ela é ocupada por elementos mutantes e nômades, capazes de engendrar novas linkagens e acontecimentos imprevisíveis". Mas de minha parte, não posso me deliciar com jogos de pensamento, pois não sendo filósofa, me espanto em caráter permanente diante do estado da cidade. Em todos os bairros. Todos. Se a proposta de Muntadas me pareceu, executada, extremamente tímida, como saber se não ocorreu aí um cerceamento em sua possibilidade de ser explícito? Suas placas de bronze, elegantes em seu convencionalismo, registrando os desastres arquitetônicos da cidade de São Paulo são mais um festejamento desses locais que uma denúncia... Estarei equivocada? Este grito que é Arte/Cidade 4, que expõe os intestinos da cidade (e cheiram mal... ou nos assombram por sua vitalidade), é um projeto sem término. É um processo. Que deve ser discutido entre seu realizador, sua equipe de produção e engenharia, e os artistas e arquitetos que dele participam. Pois embora para um teórico como Nelson Brissac não seja esse o resultado imediato de suas intenções, dessas discussões e desse grito podem nascer idéias, e poder-se-ia motivar poderes públicos. Que têm força para atuar e alterar essa inércia, que, a meu ver, existe e demanda urgência para uma alteração de rumos. As intervenções urbanas têm, assim, uma razão de ser. Se a poética do artista é necessária, assim como a utopia, a dignidade do ser humano é sua contrapartida. A poética existe porque o ser humano que a concebe possui uma dignidade que lhe foi conferida. Ou conquistada. Serviço Artecidadezonaleste De terça a sexta, das 14h às 21h; sábado e domingo e feriado, das 10h às 17h. Informações pelo tel. 0800-771-1132. Serviço de visitas guiados pelo 0800-770-3316. Grátis. Sesc Belenzinho. Avenida Álvaro Ramos, 991, tel. 605-8143. Até 30/4. Aracy Amaral é crítica de arte, museóloga e historiadora. Foi diretora da Pinacoteca do Estado e do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC-USP)

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