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Os homens, os insetos e o machismo

Homens: libertem-se dessas amarras. Assumam o medo de barata, o pavor de aranha

Ruth Manus, O Estado de S. Paulo

15 Outubro 2017 | 03h00

Muito se engana quem pensa que o machismo é um problema só para as mulheres. O machismo é um problema para todo mundo. É ele que faz com que os homens ainda se constranjam ao chorar, é ele que faz com que um homem pense duas vezes antes de comprar uma camisa cor-de-rosa que adorou, é ele que faz com que meninos não brinquem com bonecas por acharem que isso significa algo além de exercitar o instinto paterno.

Enfim, o machismo é uma porcaria generalizada. Mas disso todos nós já sabemos. Esse texto pretende apenas falar sobre mais um dos problemas que o machismo nos traz: a relação entre os homens e os insetos. 

Em algum momento da história fixou-se a ideia estapafúrdia de que mulheres têm o direito de ter pavor de insetos, enquanto os homens não. Realmente não me ocorre nenhuma relação entre baratas e virilidade, mas diz o senso comum que homens não devem subir no sofá e pedir socorro quando esses bichos dão o ar da graça.

Comecei a notar tal problema há uns 5 anos, quando eu e meu pai entrávamos no carro e eu vi um besouro caminhando no painel. Comecei um certo escândalo, confesso. Não tenho muito medo de insetos, mas um besourão daqueles dentro do carro merecia cada nota aguda do meu chilique.

Meu pai, que não via o besouro, esbravejou “Ruth, para de frescura, fecha essa porta e vamos embora que sua mãe está esperando a gente pra almoçar”. Eu tentei justificar o perigo, mas ele não deu trela. Fechei a porta e recolhi minhas pernas para cima do banco, já que havia perdido o besouro de vista.

Cerca de 5 minutos depois, estávamos parados num farol da Avenida Santo Amaro. Coisa rara, meu pai estava com o vidro aberto. Acho que ele estava com algum receio do Conto do Besouro no Painel não ser obra de ficção. Foi quando eu vi. O besouro estava escalando a barriga do meu pai (que não perde para gestante nenhuma na sala de espera da Pro Matre). Ele ia bem na trilha dos botões da camisa azul. E eu disse baixinho “ai... o besouro tá na sua barriga...”. 

Meu pai olhou para baixo e, por motivos óbvios de vinho e amendoim, não enxergava o besouro que ainda não tinha feito a curva do umbigo e disse com desprezo “não tem besouro nenhum, Ruth”. Até que bem no fim da frase, o animal, do tamanho de uma bola de golfe, foi surgindo frente aos olhos do meu pai. Acho que eu nunca tinha ouvido ele dizer um P... QUE O PARIU tão sonoro quanto aquele. Não satisfeito ele disse P... QUE O PARIU QUE P... BICHÃO, enquanto dava um tapa no besouro que voou desgovernado pela janela.

Na sequência, meu pai se vira para mim com a cara mais lavada do mundo e diz “Viu? Não era nada demais, não precisava daquele escândalo todo”. Era óbvio que meu pai tinha ficado com mais medo do besouro do que eu. Mas o machismo jamais permitiria que ele admitisse isso.

Na minha recente lua de mel, foi a vez do meu marido. Como bom europeu, ele não conhece insetos de verdade. Só aqueles bichinhos bobos do velho mundo. Nada de borrachudo, barata voadora ou formiga vermelha. Estávamos no jardim botânico de San Miguel de Allende e eu já havia dito que estava incomodada com aquelas aranhas imensas e com todos os outros bichos que nos rondavam. Ele dizia “exagero teu”.

Até que ele parou para olhar um cacto e – bingo – uma formiga vermelha quis provar o sangue lusitano. Ele falou uns “ai, ai” contidos, levou a mão ao tornozelo e resmungou alguns palavrões ininteligíveis. Picada de formiga vermelha dói horrores. Eles deveriam poder chorar e tudo o mais. Mas, não, o machismo exige que eles sigam caminhando.

Homens: libertem-se dessas amarras. Assumam o medo de barata, o asco por lacraia, o pavor de aranha. Vocês têm esse direito, tá? O machismo já nos roubou muita coisa. Não vamos deixar que ele nos roube ainda mais. E podem subir no sofá sim, ok?

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