Os hereges

Cristina, rainha da Suécia, convidou René Descartes para ser uma espécie de filósofo em residência no seu reino. Anos depois Catarina, czarina de todas as Rússias, convidou o enciclopedista francês Denis Diderot para ser a mesma coisa no seu palácio, o Hermitage, em São Petersburgo. Frederico o Grande da Prússia também quis ter o seu francês e mandou buscar Voltaire para ser seu interlocutor e consultor literário e legitimizar sua pretensão a rei-filósofo e filho do Iluminismo.

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

17 Abril 2011 | 00h00

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Descartes foi hostilizado pelos pensadores suecos como já tinha sido combatido pela Igreja na França. Escreveu de Estocolmo que lá as ideias congelavam, "exatamente como a água". E foi o frio da Suécia que o matou, embora se desconfie que os ciumentos médicos da corte tenham ajudado um resfriado a se tornar mortal. Denis Diderot ficou dois anos em São Petersburgo. Seu relacionamento com a czarina e sua corte foi pacífico e a separação foi amigável. Já a visita de Voltaire ao palácio de verão de Sans Souci, perto de Berlim, foi feliz até Voltaire ser preso a mando do rei quando tentava voltar para casa, acusado de quebra de contrato e corrupção e de ter roubado alguns dos seus poemas eróticos, provavelmente a acusação que mais doeu.

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O curioso é como os três (e outros como Rousseau, Condorcet, D"Alembert, que também levaram conselhos franceses a poderosos de outras terras) foram adotados por monarquias absolutas justamente por serem notórios hereges, cuja crítica à ortodoxia religiosa implicava, por tabela, uma crítica a todo poder absolutista, e cujas ideias mais tarde dariam origem às revoluções republicanas. (É de Diderot a frase "A humanidade só será livre no dia em que o último déspota for enforcado com as tripas do último padre".)

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Talvez os monarcas intuíssem que mostrar inquietação intelectual e credenciais progressistas os salvariam da onda racionalista que se aproximava, ou talvez apenas quisessem intelectuais iconoclastas aos seus pés, como animais domados. A razão dos intelectuais para aceitarem os convites era mais clara: na época não se recusava um bom patrono, ainda mais um patrono como verbas reais. Mas também inaugurava-se uma questão que atravessaria a História, a da relação dos intelectuais com o poder e do poder com os intelectuais. Onde termina o fascinação e a vaidade e começa a cumplicidade, onde termina a admiração e começa a cooptação?

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Uma versão caricata do intelectual cooptado é o bobo da corte, o único membro do reino autorizado a rir do rei. Mas se o filósofo em residência só se arriscava a ter suas ideias contestadas ou ignoradas, o bobo arriscava muito mais. Num cartum clássico, o bobo está prestes a ser executado no porão do castelo quando chega alguém correndo e grita: "Parem, parem, o rei entendeu a piada!" A piada era mais perigosa do que a ideia e seu castigo mais radical porque seu produto potencial era o ridículo, ou a heresia na sua forma mais cortante, e que o poder mais teme. O humorista era uma ameaça constante de ridículo irrecuperável. Aos intelectuais da corte bastava serem convivas interessantes, mesmo que críticos. Ajudava se você fosse francês.

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