Os gregos eram assim

A música popular vai bem de nome. Sempre música popular. Mas a outra, como é mesmo o seu nome? O maestro Júlio Medaglia, com sua verve muito especial, gosta de chamá-la de música impopular. Está certo, não deixa de ser verdade. Os americanos (do norte!) chamam de serious music. E o nosso grande Mário de Andrade (de novo, sempre ele) preferiu batizá-la de música erudita, nome sem dúvida muito douto. Mas não vamos discutir com ele, um homem que sabia das coisas.

GILBERTO MENDES, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2010 | 00h00

Recentemente um excelente pequeno livro do violonista Sidney Molina assume, no título, um velho nome, na verdade, o mais legal de todos, que é Música Clássica Brasileira Hoje. À maneira da língua inglesa, mas dos ingleses de Oxford: classical music.

Valho-me agora do próprio Mário de Andrade para defender esse nome para a música não popular. Em sua preciosa Pequena História da Música Mário explica: clássico é tudo aquilo que se estuda nas classes. Ora, nada é mais estudado nas classes do que a chamada música não popular.

Mas, pensando bem, o contraditório Mário não deixou de ter certa razão para chamar a música não popular de música erudita. Entre as artes, é sem dúvida a mais erudita. Afinal, na antiguidade greco-romana caracteristicamente muito elitista, ela era uma das disciplinas do Quadrivium, junto com a aritmética, a geometria e a astronomia. Algo já, naquele tempo, equivalente a um penser la musique aujord"hui, do Pierre Boulez, urdido nas mais elevadas esferas do pensamento. Mas foi assim possível a sistematização, pelos gregos, das alturas musicais, tons, semitons, modos, toda uma acústica, uma física da música. Nada tão fruto de uma sofisticada cultura, todo esse primeiro lance na estruturação de uma tradição cultural, trabalho que parte sempre de uma alta classe intelectual. Nada tão erudito, tão heleno, tão belo, a música no cimo de toda essa complexa especulação ligada a um pensamento tão científico! Música clássica, You''re the top !

Ainda entre os greco-romanos podemos encontrar um Boécio nos explicando que o homem é feito conforme a medida do universo e extrai prazer de toda manifestação de tal semelhança, o que vamos constatar na criação científica, artística. Está todo aí o tão discutido significado da arte. É o prazer puro da construção, dentro de certos princípios do Cosmos.

Santo Agostinho e Boécio definiram, em tratados, uma teoria para a música. Mas Boécio considerava Pitágoras o inventor da música. O mesmo, o grande Pitágoras da música das esferas, a quem séculos depois Newton retornaria para provar a harmonia celeste da gravitação universal. Para todo esse intelectualíssimo Olimpo de experimentalistas, música é número para ser ouvido. O número rege o universo, essa grande abstração matemática. Nós somos números, proclamavam os gregos. Barra pesada, pra valer. Mas...

"Os gregos eram assim". Me vem à lembrança esse título de uma popular comédia cinematográfica dos anos 1930, com Eddie Cantor. E o grande Godard, recentemente, dizendo que o mundo todo precisaria pagar royalties aos gregos, a quem devemos a filosofia, o teatro, a democracia. E a música, acrescento eu, mais a emoção de poder subir a colina que nos leva ao Partenon, ver lá embaixo o palco onde foram estreadas as peças de Sófocles! Coisa que pude sentir ao participar do primeiro Festival de Patras, quando me encomendaram, para o festival seguinte, uma obra inspirada em algum mito europeu. Escolhi um mito deles mesmo: Ulysses.

E não podia deixar de ir a Delfos, onde Apolo apareceu ao povo grego: Apolo, o "Príncipe do número 7," aquele que abarca todas as sinfonias. Como o Sol, rei da harmonia dos 7 sons, afinando as cordas dos instrumentos com a música celeste do universo. Em Delfos ainda podemos ver o mais velho documento musical grego, o Hino a Apolo, inscrito numa pedra. O guarda do museu foi logo prevenindo que não eram permitidas fotos. Tarde demais. Minha mulher já tinha me fotografado junto à inscrição. Eu não ia ficar sem uma foto ao lado do hino com o qual, um pouco modificado, abro meu Ulysses em Copacabana, surfando com James Joyce e Dorothy Lamour. Nada menos clássico, para variar.

GILBERTO MENDES É COMPOSITOR, CRIADOR DO FESTIVAL MÚSICA NOVA E AUTOR DE, ENTRE OUTRAS OBRAS, UMA ODISSEIA MUSICAL (EDUSP)

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