Os grandes campeões foram Racionais MC's e Chico Science

Análise

O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2012 | 03h09

Zico Góes (Diretor da MTV)

Adoro uma lista, um ranking. Sou chegado numa seleção, numa parada. Aliás, eu e todo mundo, desde os 10 Mandamentos, das Sete Maravilhas do Mundo. Listas são legais porque na maioria das vezes são suspeitas, incompletas e injustas. Às vezes até democráticas, científicas e educativas. Quase sempre divertidas e polêmicas. Listas são interessantes pelo que revelam de quem as produz. No caso presente são duas listas: A sugerida pelo Estadão e o ranking feito pelos leitores/internautas. Duas revelações! A lista dos 30 candidatos ao título de melhor disco e o desafio que ela sugere não chegam a ser originais. Mas a lista foi feita por gente que conhece do assunto. É sofisticada, clássica. Quase a tradução do senso comum do que é a música de qualidade no Brasil. A edição é pela qualidade, não pela popularidade. A lista é sempre a cara de seus curadores e, por isso mesmo, carregada de viés. Colocar a lista em votação pela internet também é corajoso por assumir o risco de um resultado enviesado. Foi o que aconteceu nesse caso, a julgar pelo ranking final. As imperfeições desse ranking têm a ver com a mecânica e o tempo de votação, e com o fato de o voto não ser obrigatório. Viva a democracia? Pra organizar melhor as reflexões fiz uma... lista.

1. A escolha dos 30 é reveladora. Nítido e justificado viés MPB, exclusão da trinca axé-pagode-sertanejo. A lista é a cara do Estadão. O público foco pode-se supor adulto, não jovem: a maioria dos indicados foram lançados há mais de 20 anos.

2. Mas o resultado sugere uma participação de um púbico mais jovem. O ranking dos leitores rejuvenesceu a lista de candidatos. Los Hermanos campeão é nítida distorção. Vamos combinar que Ventura não é, em nenhuma lista, o melhor disco de todos os tempos. Mas os fãs de Los Hermanos são engajados como são suas músicas. São jovens, fiéis, mobilizados.

3. O engajamento, a ideologia e a fidelidade, e não a juventude, talvez expliquem o estranho segundo lugar de Milton e o Clube da Esquina. Algo parecido pode-se dizer da Legião Urbana.

4. Esse top 3 do ranking, assim como a boa colocação de Novos Baianos e Tropicália, parecem revelar a capacidade mobilizadora de movimentos musicais coletivos, ideológicos, revolucionários (uns bem menos que outros...).

5. Rock, a despeito de sub representado entre os indicados, emplacou dois no top 10 e por razões diferentes. Raul é mítico e, embora o brado 'tocarraul' tenha arrefecido, a garotada parece renovar o interesse pelo baiano. Titãs em oitavo pressupõe público paulista, mas eles foram grandes e a garotada já incorporou como clássicos.

6. Interessante notar que entre os medalhões da MPB em categoria solo todos ficaram de fora do top 10. Caetano, Gil e Milton só chegaram lá 'acompanhados'. A brilhante - e porque não dizer esverdeante - exceção do Chico Buarque. Suspeito maciça votação feminina...

7. Pra mim, os campeões foram Racionais e Chico Science, quase empatados com o rei Roberto. Também representantes da música engajada, comunitária, são dois fenômenos dos anos 90. Expoentes de movimentos transformadores da música no Brasil. Chico Science, é o grande intruso, deixando pra trás um monte de bamba. Mas não é surpresa. Seu mangue beat ainda é a batida que todo mundo procura. Como Chico, foi pouco profícuo, pois durou pouco entre nós. E Racionais , embora sejam a maior banda do País, são da periferia e nada mainstream, a colocação dos dois no ranking me soou emblemática e equivale a estar no topo da lista. Mas a reflexão mais importante é não levar essas listas muito a sério, muito menos essa que eu acabo de produzir. Listas são bons pretextos para celebrações, para cultivar a memória, cotejar opiniões ou mesmo ilustrar a conversa mole entre amigos. Eu adoro uma lista.

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