Os galeses em campo

Banda Los Campesinos! usa sua paixão pelo futebol, nas letras e no palco, como trunfo lírico

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2014 | 02h23

Na sétima rodada do Campeonato Brasileiro, no sábado, dia 24, às 21h, no meião da torcida do jogo São Paulo X Grêmio haverá um grupo de gringos muito observadores: trata-se do grupo galês Los Campesinos!, que estará no País para o 18.º Cultura Inglesa Festival (abrirão no dia 25, no Memorial da América Latina, para a lendária banda escocesa Jesus & Mary Chain).

São-paulinos, não se enganem com eles: sabem tudo de futebol. À frente dos Campesinos! está o inglês Gareth Paisey, vocalista e compositor, que tem entre as lembranças mais dramáticas da sua vida a seguinte imagem: em 1998, aos 12 anos, ele segurava a mão do pai e seguia chorando de volta para casa, inconsolável com a eliminação da seleção inglesa naquela Copa do Mundo.

A caminho do Brasil, Los Campesinos! postaram no Facebook que, logo após o show, dariam um tempo nas turnês e ficariam o mês inteiro no País para ver a Copa do Mundo. Era blefe. "Nós somos fanáticos torcedores de futebol. Mas não ficaremos para a Copa. É só a manifestação de um desejo. Eu adoraria. Mas ao menos sentiremos a febre em torno da Copa do Mundo. Nós compramos ingressos para ver, um dia antes do nosso concerto, o jogo São Paulo X Grêmio, no Morumbi. Estamos muito ansiosos para ver um jogo de futebol aí no Brasil", disse Gareth, falando ao Estado por telefone, de Londres.

A paixão de Los Campesinos! pelo antigo esporte bretão, hoje planetário, ultrapassa a coisa da arquibancada. Em uma de suas canções, Let It Spill, Gareth proclama: "Béla Guttmann of love/ curse all of my exes to a life of celibacy" (Béla Guttmann do amor/Maldição de todas minhas ex-namoradas para uma vida de celibato"). Só quem é muito enfronhado no futebol, tipo Paulo Vinicius Coelho, saberia do que trata esse verso. Béla Guttmann foi um jogador e treinador húngaro que fez sucesso no início do século 20. Treinou e foi campeão com o Milan e o Benfica e chegou a treinar o SPFC e ser campeão (aqui, costumavam chamá-lo de Gutmann Béla; foi ele quem exigiu a contratação de Mestre Ziza).

"Ele foi popular no São Paulo? Vamos tocar a música no show, será interessante evocar o nome de Guttman em São Paulo", festejou Gareth, ao saber da saga brasileira de Guttmann.

Apesar da paixão, o nome da banda, Los Campesinos!, não tem link com o futebol. "Acho que uma das coisas a respeito da escolha do nome foi que procuramos algo que pudesse ser pronunciado e ouvido por todo mundo, e que todos compreendessem. É engraçado, porque como é um nome em espanhol, isso nos abriu portas, fizemos shows na Argentina, Colômbia e Venezuela e finalmente vamos ao Brasil."

Em geral, os jogadores sul-americanos na Inglaterra não têm grande sucesso. Parecia que isso estava mudando um pouco, com David Luiz, Ramires, Oscar, Paulinho, mas eles entraram num período de baixa popularidade - que fase! "Muitas vezes, quando as pessoas falam sobre jogadores brasileiros, lembram de Kleberson, que jogou no Manchester United, e isso porque ele obteve sucesso com o time nacional do Brasil, foi campeão do mundo. Creio mesmo que o primeiro brasileiro a fazer sucesso foi Juninho Paulista, que jogou no Middlesbrough. Em relação aos argentinos, também ocorre algo parecido. Tevez foi do Manchester City, e foi controversa sua passagem pelo time. A Argentina ganhou sua primeira Copa em 1978, então também a internacionalização do seu futebol demorou um pouco", ponderou.

Gareth já foi mais esperançoso no destino do seu time, mas não bota fé na esquadra britânica este ano, mesmo a Inglaterra jogando diferente do que jogava no passado, com mais toque de bola. Não os coloca entre os favoritos. "Eu gostaria muito, mas não creio que iremos fazer uma grande Copa do Mundo. Há bons jogadores, mas a maioria é de defensores. Admiro especialmente o jogo do Danny Welbeck, que joga no Manchester United. Por outro lado, veteranos como Gerard e Lampard já esgotaram sua contribuição. O jogo da seleção não é muito entusiasmante de se ver jogar. Fizemos feio na última Copa do Mundo. Minha torcida é para eles, é claro, mas não tenho esperança de que ultrapassem os primeiros três jogos."

Embora não seja do País de Gales, a banda foi formada lá e desenvolveu-se com os imperativos da localização geográfica. "É engraçado você mencionar o (grupo galês) Super Furry Animals, porque eu trabalhei para uma gravadora, e nós lançamos um álbum do banda. Eu gastei dias e dias enviando discos pelo correio e escrevendo releases sobre o grupo. Há elementos de música galesa no nosso som. Bandas como Gorky's Zygotic Mynci, Super Furry Animals e mesmo The Underdogs. Essa coisa de ser experimental e pop ao mesmo tempo. Mas, no início, fomos muito mais influenciados por bandas norte-americanas do que inglesas. Grupos como Pavement, Sonic Youth, Dinosaur Jr., eram grupos que a gente realmente admirava. Pavement era o número um. Essa atitude de não buscar o sucesso a qualquer custo, de fazer música que nos divertisse antes de qualquer coisa, foi o que nos influenciou."

Sobre o encontro que terão com os reis da distorção melódica, o Jesus & Mary Chain, ele diz: "Nunca tive a sorte de vê-los ao vivo. É claro que (o disco) Psychocandy foi uma influência, assim como sua convicção independente. Será maravilhoso vê-los ao vivo. Eu nem sei como eles se parecem, não os reconheceria. É uma maravilhosa oportunidade".

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.