OS FILMES PREMIADOS

À cerimônia de encerramento do festival não faltaram manifestações de pesar por seu criador, Leon Cakoff

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2011 | 03h07

Foi a mais discreta e simples das cerimônias de encerramento da Mostra, marcada, ainda, pelas manifestações de pesar pela morte do criador do evento, Leon Cakoff. A própria Renata de Almeida entregou o Prêmio Humanidade, que agora leva o nome do marido, Prêmio Humanidade Leon Cakoff, para Atom Egoyan. O autor canadense, que integrava o júri, lembrou que, há 25 anos, Leon o convidava para vir a São Paulo e este ano, quando ele pôde aceitar, o anfitrião havia partido. A mesma tristeza transparecia na fala de Mohsen Makhmalbaf, que ganhou o segundo Prêmio Humanidade Leon Cakoff de 2011.

Desta vez, Renata pediu a um amigo da Mostra, Walter Salles, que dividisse a tarefa com ela. Sallés - como é chamado por Makhmalbaf - integrou com o diretor iraniano o júri da Mostra de 1999. "Naquele ano, premiamos O Balão Branco", lembrou Salles, referindo-se ao diretor do Irã que está preso no país, além de ter seus direitos de cineasta suprimidos por 20 anos (20!) pelo regime do presidente Mahmoud Ahmadinejad. Makhmalbaf participou em Porto Alegre do seminário Fronteiras do Pensamento. Aproveitou e estendeu a viagem a São Paulo para abraçar o amigo Leon.

Só aqui ficou sabendo da morte do homem que tanto fez pela divulgação do cinema iraniano no Brasil. O mesmo sentimento havia sido manifestado por Atom Egoyan, que agradeceu ao cinéfilo, que Leon foi, por ter trazido seus filmes ao País. Makhmalbaf foi político. Comparou o que se passa hoje no Irã ao macarthismo, nos EUA dos anos 1950, "só que muito pior". Cerca de 30 mil pessoas já foram presas - artistas, intelectuais, professores - pelo crime de ter ideias. E Makhmalbaf pediu ao pessoal de cinema do Brasil que pressione a presidente Dilma Rousseff para que ela não vote a favor de Ahmadinejad em foros internacionais.

Salaam Cinema, Salve o Cinema. É o título de um dos grandes filmes de Makhmalbaf. Salaam Leon, Salaam Mostra. A noite, marcada por essas manifestações, foi compreensivelmente de festa. O Cinesesc, onde se realizou a cerimônia, estava apinhado de gente que queria ver depois O Fausto de Alexander Sokurov, vencedor do Leão de Ouro no recente Festival de Veneza. A apresentadora Marina Person - em dupla com Sérgio Groisman - lembrou as inúmeras filas que teve de enfrentar e disse que "ontem, quarta-feira, estava sentada ali no chão, porque não tinha lugar".

A Mostra atribui diversos prêmios. Os júris mais importantes são os do Itamaraty e, naturalmente, os de ficção e documentários, organizados pelo evento. O júri de documentários, integrado por Lúcia Murat, parabenizou Renata pela qualidade dos filmes, mas a apoteose - a epifania - veio no último dia, com Marathon Boy e o filme de Gemma Atwal foi escolhido por unanimidade. Marathon Boy é sobre Budhia Singh, garoto de 4 anos que é levado de uma favela na Índia e treinado para ser corredor. Em um ano, ainda com 4 anos, Budhia participa de 48 maratonas. Na última, sofre um colapso.

Gemma Atwal fez um filme de grande complexidade ética e estética. Não discute apenas a infância, o abuso, mas também o estímulo para que o menino maratonista saia do seu meio asfixiante e vire umas pessoa melhor. A história de Budhia de alguma forma lhe serve como metáfora da própria Índia potência capitalista. O outro júri, de ficção, escolheu Respirar, de Karl Markovics. O filme é sobre garoto de comprou parte da pena e ganha liberdade condicional. Ele vai trabalhar num necrotério. Descobre essa morta que possui o mesmo sobrenome que ele. E pela primeira vez Ropman, é seu nome, se indaga sobre suas origens, sua identidade.

Respirar foi indicado pela Áustria para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Como Marathon Boy, o filme havia sido previamente selecionado pelo público da Mostra, no formato democrático que Cakoff estabeleceu para a competição do evento que criou. Outros prêmios importantes - o da crítica, que foi para Era Uma Vez na Anatólia, de Nuri Bilge Ceylan, com direito a menção para Sábado Inocente, de Alexander Mindadze. O público dividiu seus prêmios entre filmes brasileiros e estrangeiros. A melhor ficção brasileira foi Teus Olhos Meus, de Caio Soh. O melhor documentário foi dividido entre Vai-Vai, 80 Anos nas Ruas, de Fernando Capuano, e Raul - O Início, O Fim e o Meio, de Walter Carvalho. A melhor ficção estrangeira ficou dividida entre Frango com Ameixa, de Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud, e Desapego, de Tony Kaye. O melhor documentário foi Batidas, Rimas & Vida, de Michael Rapaport.

O Itamaraty de melhor ficção brasileira foi para Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios, de Beto Brant e Renato Ciasca. O Itamaraty atribui ainda prêmio de carreira para diretor que tenha contribuído para divulgar a imagem do cinema brasileiro no exterior. Foi para Hector Babenco. Os premiados integram a programação de repescagem da Mostras, que vai até quinta, em duas salas (Arteplex e Cinesesc, neste, só até amanhã). O filme de Ceylan teve de ser devolvido aos produtores e, infelizmente, não integra a seleção.

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