Os extremismos e Daniel Barenboim

Ao mesmo tempo que os aiatolás fanáticos do Irã proibiram Daniel Barenboim de ir a Teerã para dirigir a Staatskapelle Berlin Orchestra pelo fato de ele ter nacionalidade israelense (que o Irã não reconhece), a ministra da Cultura e Esportes de Israel, Miri Regev, exigiu que a chanceler alemã Angela Merkel impeça a presença do músico no Irã porque esse cidadão, com suas críticas aos assentamentos e, no geral, à política do governo Israel com relação aos palestinos, pode causar um grave dano à causa da paz. 

Mario Vargas Llosa - O Estado de S. Paulo

07 de setembro de 2015 | 05h00

Duas atitudes de extremismo que se manifestam ao mesmo tempo e confirmam a tese da identidade dos contrários. As duas iniciativas mostram, de um lado, a absoluta falta de racionalidade e a cegueira religiosa que prevalece na questão do conflito israelo-palestino e, de outro, a luta descomunal que devem empreender aqueles que, como Daniel Barenboim, desejam melhorar as relações entre os povos e aproximar por meio do senso comum e a boa vontade essas duas comunidades separadas hoje por mares de ódio e fanatismo recíprocos. 

Tenho grande admiração por Daniel Barenboim, como pianista e maestro. Eu o ouvi como solista e como dirigentes das melhores orquestras do nosso tempo e para mim ele é um dos mais ilustres músicos contemporâneos. Espero com impaciência o iminente lançamento da sua nova versão dos dois concertos para piano de Brahms, um dos seus trabalhos memoráveis desde que os gravou pela primeira vez em 1958, dirigido por Zubin Mehta.

Minha admiração por Barenboim não é somente pelo grande instrumentista e dirigente, mas também pelo cidadão comprometido com a justiça e a liberdade e que, ao longo de toda a sua vida, tem mostrado a coragem de nadar contra a corrente em defesa do que acredita ser justo e digno de ser defendido e criticado. Embora tenha nascido na Argentina, é cidadão israelense e sempre militou ao lado dos israelenses que criticam o tratamento desumano de muitos governos de Israel, como os de Binyamin Netanyahu, com relação aos palestinos nos territórios ocupados e em Gaza. E ele tem se empenhado incansavelmente para aproximar as populações e manter um diálogo aberto com elas.

Desta maneira nasceu esse projeto apadrinhado por ele e pelo ilustre intelectual palestino Edward Said, a fundação em 1999 da West-Eastern Divan Orchestra, formada por jovens músicos israelenses, árabes e espanhóis e patrocinado pela Junta de Andaluzia. 

Seus esforços para um diálogo entre israelenses e palestinos foram reconhecidos por estes últimos, que lhe concederam a nacionalidade palestina, que Barenboim aceitou, explicando que o fazia “com a esperança de que isto sirva como sinal de paz entre ambos os povos”.

Mas, quando considerou necessário, Barenboim também batalhou no que poderíamos chamar de o lado oposto do campo ideológico. Por exemplo, na campanha para a obra musical de Wagner ser tocada em Israel, o que era proibido por causa dos escritos antissemitas do compositor. A campanha teve sucesso e ele próprio dirigiu, em sete de junho de 2001, em Jerusalém, a Staatskapelle de Berlim na apresentação da ópera Tristão e Isolda.

Houve alguns gritos de “nazista” e “fascista” na plateia, mas a grande maioria do público aplaudiu os músicos e a ópera, aceitando a tese defendida por Barenboim de que, felizmente, o talento criador de Wagner não foi contaminado por seus preconceitos racistas. Não foi o caso também de outros grandes criadores, como Balzac, Thomas Mann e T.S. Elliot?

O compromisso político é muito menos frequente entre os músicos do que entre os escritores e outros artistas, talvez porque a música, sobretudo a “erudita” aparenta uma absoluta neutralidade ideológica, não dá a impressão de se contaminar, nem se pronuncia a respeito da problemática social e política da época em que foi composta.

Entretanto, sua utilização com frequência tende a lhe conferir cores ideológicas, assim como a filiação e a militância de seus compositores e intérpretes, e também o uso que faz dela uma determinada cultura ou um regime autoritários. Hitler e o nazismo transformaram abusivamente a música de Wagner em uma iniciativa artística do Terceiro Reich (tentaram algo parecido com a filosofia de Nietzsche) e durante um bom tempo essa identificação forçada perdurou, desnaturalizando, para muitos, o valor e a originalidade artística das composições de Wagner.

É preciso agradecer Daniel Barenboim pelo seu empenho para resgatar essa visão minúscula e mesquinha de um dos gênios indiscutíveis da música e, ao mesmo tempo, por nos ajudar a entender que a genialidade de um músico, de um pintor, de um poeta e até de um filósofo (caso de Heidegger) não está necessariamente livre de tropeços nem de grandes erros

Daniel Barenboim logo mais irá completar 73 anos e ninguém o diria ao examinar sua frenética agenda de atividades, viajando por todo o mundo com seus quatro passaportes: argentino, israelense, espanhol e palestino, praticando sem trégua os seis idiomas que domina, dando concertos como dirigente de orquestra ou como pianista nos mais prestigiados palcos do planeta. 

E como, ao que parece, essa atividade incessante não esgota sua indômita energia, ele ainda tem tempo para polemizar com gregos e troianos em nome das boas causas: a racionalidade contra os fanatismos e extremismos, a defesa da democracia contra todos os autoritarismos e totalitarismos, a divulgação da arte e da cultura como um patrimônio da humanidade que não deve admitir censuras, exclusões nem fronteiras.

Em uma época tão difícil e confusa como a nossa no que se refere à vida cultural e ao compromisso político, muitos artistas e intelectuais têm preferido o pessimismo: olham para o outro lado, concentram-se em uma atividade que sirva de defesa impermeável contra os ruídos do mundo, fecham os olhos e tapam os ouvidos para não se degradarem, confundidos com “o vulgo municipal e denso”.

Daniel Barenboim está no polo oposto de tal abdicação. Ele demonstra, com o valor do seu labor artístico e seu compromisso cívico exemplar, que sempre existe esperança e que é preciso seguir, contra ventos e marés, a batalha por um mundo melhor. Os ataques que acaba de receber dos aiatolás iranianos e da ministra da Cultura de Israel são, na verdade, uma homenagem à sua valentia e à sua decência. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO


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