Os etruscos de Giacometti

Mostra em Paris associa o artista a essa civilização e antecipa o que SP vai ver em março

ANTONIO GONÇALVES FILHO, PARIS, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2011 | 03h09

Os turistas que visitam Paris têm ainda quase um mês para ver uma das mais importantes exposições desta temporada, Giacometti et les Étrusques (até dia 8 de janeiro, na Pinacothèque de Paris). A mostra tem como curador Marc Restellini, que confronta a obra do artista suíço Alberto Giacometti (1901-1966) e a antiga escultura etrusca. Lado a lado, o curador coloca um pequeno, mas importante bronze etrusco, L'Ombre du Soir (350-300 a.C.), um nu masculino com pouco mais de 57 centímetros de altura, e um nu feminino da série Femme de Venise (o de número 9, de 1956), um dos pontos altos da carreira de Giacometti. O resultado desconcerta o espectador - principalmente porque a primeira, produzida no período helenístico da civilização etrusca, é absolutamente contemporânea, podendo passar sem problemas como uma obra do próprio Giacometti, que será homenageado em março de 2012 com uma retrospectiva na Pinacoteca do Estado (leia texto nesta página).

As confrontações, diz Marc Restellini, fazem avançar a história da arte. Ele cita como exemplos o histórico confronto entre Van Gogh e Gauguin, há dez anos, no Instituto de Arte de Chicago, e a releitura da obra de Jackson Pollock à luz do xamanismo, mostra realizada há dois anos na mesma Pinacothèque de Paris, que agora expõe, pela primeira vez fora da Itália, a escultura L'Ombre du Soir, que o curador define como embrião de todo o trabalho escultórico de Giacometti, provocando outros especialistas na obra do artista - esses defendem que ele alongaria suas peças, afinando suas silhuetas, para dar um aspecto dinâmico e ligeireza à figura humana. Em todo caso, foi depois da descoberta dessa pequena escultura etrusca que o suíço criou suas figuras filiformes, embora Restellini não reduza o debate a essa questão de identidade e diferença. Ele prova que, ao evocar o mundo antigo, os surrealistas encontraram um ideal estético muito próximo desse movimento ao qual, inicialmente, Giacometti esteve filiado. Quem seria esse artista que 2.500 anos antes do suíço interpretou o mundo com os mesmos critérios?, pergunta Restellini, buscando uma resposta à intrigante questão.

Não se trata apenas de curiosidade sobre o processo de trabalho de Giacometti, que, filho de um grande pintor pós-impressionista, inspirou-se nas antigas civilizações. Afinal, teria sido Picasso cubista sem passar pela ancestral cultura africana? No caso de Giacometti, esse encontro com a cultura etrusca se deu oficialmente em 1955, quando o Louvre promoveu uma grande exposição de arte desse povo de piratas - era assim que os gregos chamavam os etruscos, seus rivais. Esses, lembra Restellini, criaram uma arte de excepcional qualidade, expressa principalmente nos sarcófagos e nas figuras de poderosos guerreiros - esculturas longilíneas, de uma modernidade estética espantosa, segundo o curador. Foi exatamente essa modernidade que provocou um choque em Giacometti. Intrigado, ele pagou tributo aos etruscos visitando o Museu Arqueológico de Florença e, depois, o Museu Etrusco Guarnacci de Volterra (uma das cidades-estados da antiga Etrúria), onde, confirma Restellini, o escultor descobriu a obra emblemática do mundo etrusco, a escultura L'Ombre du Soir, que ele chama de "Mona Lisa" etrusca.

Antes que os romanos tomassem a Etrúria e controlassem seu território, os etruscos desenvolveram no período helenístico uma sofisticada escola artística de escultura e artesanato da qual a pequena escultura que tanto impressionou Giacometti é o exemplo máximo. Tudo leva a crer que o período de apogeu dessa sociedade democrática já havia superado a diferenciação hierárquica marcada pela construção de grande tumbas na era villanoviana. De fato, é impossível identificar a origem social da estatueta longilínea que os franceses chamam de L'Ombre du Soir, mas é possível saber o que tanto atraiu a atenção de Giacometti, cujo maior sonho era produzir uma bela escultura e enterrá-la antes que alguém a visse, como Genet diz em seu livro sobre o artista. O princípio encontra correspondência no imaginário moral dos etruscos, o de produzir a beleza para o mundo dos mortos, como evidencia uma urna funerária antropomórfica em terracota do século 7.º a.C., que Giacometti tomaria como modelo para esculpir o busto de Simone de Beauvoir.

Figuras como o do etrusco retratado em L'Ombre du Soir (A Sombra da Noite) e a série Mulher de Veneza, de Giacometti, estão no limiar do desaparecimento. Elas se decompõem, transformam-se em seres fora deste mundo, signos de uma civilização à beira do esgotamento - no caso do suíço, ele se traduz no ceticismo existencialista daquele que é considerado o porta-voz visual do movimento filosófico identificado com Sartre e Camus. Tanto os pequenos bustos (entre os quais o de Simone de Beauvoir) como os conjuntos de esculturas de homens caminhando revelam a descrença de Giacometti na Europa do pós-guerra (a maioria das obras a exposição é dos anos 1950), mas não são exatamente obras modernas. Elas nasceram na Etrúria, que já descobrira o poder da imobilidade dessas figuras, a pose hierática que as mantém afastadas do mundano.

É interessante para o visitante da exposição acompanhar as observações de Giacometti sobre os etruscos, anotadas nos catálogos das exposições que via ou dos livros de história que lia. Atento à linha iconográfica ancestral que o unia aos antigos, Giacometti concluiu que a modernidade é uma invenção para nos proteger da ideia da morte, do desaparecimento, como o da escultura que ele talvez tenha feito e, quem sabe, enterrado, movido pelo desejo atávico de enviar uma mensagem ao fim dos tempos.

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