Os escritos íntimos de Thomas Mann

Ninguém é um grande homem para o seu mordomo - ou para o seu diário íntimo. Pelo menos essa é a revelação que traz a publicação dos diários de um monstro sagrado da literatura, o alemão Thomas Mann. O segundo volume do diário, que cobre os anos de 1940 a 1955, acaba de ser publicado na França, pela Gallimard, e é objeto de resenha da revista semanal Le Point.Os textos íntimos de Mann cobrem um período vital da história européia, os anos de guerra, a inquietação diante de Hitler, o entusiasmo com Churchill e Roosevelt (que o recebe na Casa Branca), a preocupação com o destino do irmão, o também escritor Heinrich (autor de O Anjo Azul), que havia ficado na Alemanha. Mas fala também de trivialidades, como a alegria por haver comprado uma boa caixa de charutos ou encontrado uma gravata no tom justo. Há passagens que parecem impiedosas com seus contemporâneos e colegas. Mann chama a prosa de Hermann Broch de "nobre aborrecimento". Comentando o suicídio de Stefan Zweig em Petrópolis (RJ), diz que fora uma "morte estúpida, fraca, vergonhosa". O resenhista se impacienta com páginas banais que descrevem "doenças, resfriados, dores de cabeça, irritações, picadas de mosquito" - como se as pequenas mazelas de um autor de gênio pudessem interessar à posteridade. Felizmente, segundo Jacques-Pierre Amette, que assina a crítica do livro, uma linha secreta se desenha no interstício das confissões: a paixão de Mann pelos homens jovens. Os comentários se sucedem: Mann fala de um jogador de basquete negro que conhecera, de um argentino que dava cursos de tênis, de um garçom cuja nuca era particularmente atraente. A conclusão do resenhista é fácil. Lidando com uma tendência homossexual cuidadosamente reprimida, Mann teria conseguido exprimir essa luta contra os instintos apenas através da arte. Nesse sentido, Morte em Veneza seria seu livro mais confessional e o professor Gustav von Aschenbach, seu verdadeiro alter ego. A novela, adaptada para o cinema por Luchino Visconti, narra a paixão ambígua de um artista de meia-idade (escritor no original, músico na adaptação) por um adolescente, Tadzio. Ou seja, a obra revela mais do autor que suas confissões. Não chega a ser propriamente uma novidade. Lê-se os diários apenas como confirmação.

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