Os erros de uma Giselle

Balé da Cidade de São Paulo investe apenas na emoção da plateia e faz apresentação frágil e desequilibrada desse clássico do balé do século 19

, O Estado de S.Paulo

21 de dezembro de 2010 | 00h00

O público não resiste e levanta, aplaudindo e gritando, quando o fundo do palco do Auditório Ibirapuera é aberto, e o Príncipe Albrecht atira-se no parque, suicidando-se para reunir-se ao seu amor, que corre em sua direção (assim como parte do público que passeia por lá e é surpreendido pelo inusitado da situação). Esta é a última cena de Giselle, a mais recente produção do Balé da Cidade de São Paulo, que estreou no fim de semana.

A escolha para encerrar assim os 80 minutos desse clássico do balé do século 19 cabe naquilo que tecnicamente se chama de "coup de théâtre" (em francês, nomeia os "golpes teatrais" que certos diretores empregam quando desejam produzir um alto impacto emocional na sua plateia). No caso de Giselle, obra cujo segundo ato se passa na floresta encantada na qual Giselle, como todas as willis (moças que morreram antes do casamento) estão enterradas, transforma-se no gesto que consagra o amor eterno como a sua mensagem - o que não é pouca coisa em época de espírito natalino.

O sucesso entre o público costuma ser erguido como uma tenda confortável, que blinda quem o atingiu da necessidade de refletir criticamente sobre o que botou no mundo - tarefa número um do artista comprometido com o desenvolvimento do seu fazer artístico. No que diz respeito à Giselle que o Balé da Cidade de São Paulo acaba de mostrar, é justamente esse "fazer artístico" a questão.

Luiz Fernando Bongiovanni, o responsável pela concepção e pela coreografia, que é também o diretor artístico da companhia, declarou, em entrevista ao Estado, ter como objetivo produzir um espetáculo para o grande público. Como se sabe, trata-se de um modo de expressar o desejo de comunicar-se com os não familiarizados com a dança, objetivo sempre louvável, sobretudo em uma companhia mantida com recursos públicos. Diante do resultado, contudo, a pergunta que se impõe é a seguinte: até onde o desejo em produzir para quem não conhece o assunto flexibiliza a exigência de qualidade necessária para se comunicar com quem conhece?

A pergunta nasce da constatação de algumas situações preocupantes, dentre as quais duas se destacam: 1) a elenco parece solto, desamarrado, com o pior desempenho das últimas décadas, como se lhe faltasse uma mão competente para polir o que cada um resolve como pode; 2) a coreografia junta distintos materiais sem conjugá-los com uma língua própria, resultando em uma trombada entre pantomima e bufoneria confundidas com má caricatura, e uma hemorragia de passos de técnicas variadas que vão se borrando mutuamente, dada a falta de acabamento da sua execução.

Irradia da coreografia e do cenário (Soraya Kolle e Dilson Tavares) uma incômoda sombra da genial Giselle que Mats Ek coreografou em 1982, uma vez que tais referências ficam em um limbo entre citação e reapropriação. A este equívoco se juntam o desajuste entre a iluminação (Marisa Bentivegna) e o figurino (Márcia Nachbar), explicitando que o mal de que morre essa Giselle é o da dificuldade em fazer um espetáculo popular ao qual falta clareza de direção artística.

Já a Orquestra Experimental de Repertório, que toca ao vivo no espetáculo, demonstra exatamente o inverso. Com a impecável condução de seu maestro, Jamil Maluf, produz as nuances e as texturas musicais precisas, com as quais vai desvelando um domínio da dramaturgia ausente na dança. Ou seja, o Balé da Cidade de São Paulo produziu uma Giselle para se ouvir.

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