Os encantados 20 anos do Alaya

Lenora Lobo, que fundou e dirige a cia., revê trajetória criativa da trupe, espetáculos e fala das dificuldades

Helena Katz, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2010 | 00h00

Como uma companhia de dança deve celebrar os seus 20 anos de percurso? Foi para responder a essa questão que o Alaya Dança, fundado e dirigido por Lenora Lobo, estreou 20 Em Cantos no Teatro Funarte Plínio Marcos, na sua cidade, Brasília, na semana passada, e o mantém em cartaz até o próximo dia 30 de maio.

Não se trata de uma criação no mesmo sentido daquelas com que o Alaya habituou o seu público. Em entrevista ao Estado, no camarim do teatro, pouco antes da estreia, Lenora Lobo conta que tudo nasceu mesmo das perguntas que começou a se fazer e, depois, passou para os nove intérpretes criadores que hoje compõem a companhia. "Pensava no que fica no corpo, no que sobra de uma composição que se ajudou a criar. São resíduos? Esses resíduos permitem que o que foi criado possa não somente permanecer, mas ser continuado, tempos depois? Corpos mais maduros estão mais vitais? Foi por aí que começamos essa colcha de retalhos que criamos."

Lenora decidiu manter somente as músicas dos 20 trechos que seu elenco escolheu retomar das obras que ajudou a compor. "As cenas podem ser apresentadas de forma independente e, em cada uma delas, não houve preocupação em mostrar a coreografia original, mas sim o trabalho que cada um fez a partir da memória do que viveu naquela cena."

Ela explica que alaya é um termo budista que significa "o ser interior", e também "morada". "Como eu queria uma dança que fosse de cada um, sem repetir a do outro, e estava conseguindo abrir o meu estúdio, naquela ocasião, esse nome me pareceu fazer muito sentido."

História. Para este Alaya Dança 20 Em Cantos, que lida com a metáfora do canto da memória e do canto das cantigas que o elenco do Alaya adora cantar nas suas obras, foram convidados alguns dos profissionais que fizeram parte da sua história. Vieram Andrea Jabor, que participou dos dois primeiros trabalhos da companhia: Terra (1990) e Ilusões (1992); Cecília Borges, que fez ...e Sonha Lobato (1997); Dora Rocha, que dançou Ilusões e Frevendo (1994); Márcia Almeida, que também esteve no Ilusões, deu muitas aulas para o Alaya e que acaba de voltar do doutorado que foi fazer na Sorbonne; e Julio Cezar Campos, que vem da primeira turma de formação que Lenora abriu quando chegou a Brasília, em 1987, quando ainda nem existia o Alaya, e dançou Terra e Ilusões, como Andrea Jabor, sua colega nessa mesma turma.

As atuais condições de produção de dança, que no nosso país se resumem a editais, fizeram com que Lenora Lobo não conseguisse manter a sua companhia. "Sem qualquer possibilidade de trabalhar na continuidade, tendo que viver somente de editais, não consigo oferecer condições permanentes de trabalho para eles. Por isso, agora vivemos em um formato de núcleo que estimula criações dos seus membros, que apresentamos nas mostras que produzimos."

A nova situação impede a prática que costurou os 20 anos do Alaya, nos quais foi possível formar intérpretes com o método que Lenora foi aperfeiçoando ao longo do tempo, e que registrou, em 2003, em um livro que chamou de Teatro do Movimento, um método para o intérprete criador. Cinco anos depois, lançou outro livro, A Arte da Composição, Teatro do Movimento, no qual discute o que a impulsiona a criar e qual a função do artista no mundo de hoje.

O que 20 Em Cantos torna visível é justamente a existência de uma proposta assinada de movimento, de cena e de dramaturgia a unir os corpos competentes de Aida Cruz, Alexandre Nas, Beneto Luna, Christiane Lara, João Negreiros, Jorge Dupan, Hilton Gonçalves, Marcilma Carvalho e Selma Trindade.

Planos. Ampliação. "Sou artista, não consigo me ver parada, estou procurando formatos capazes de ampliar o alcance da dança, levando-a para públicos maiores, de modo que toque em muito mais pessoas. Ando me perguntando sobre o sentido dessa dinâmica de montar espetáculo, apresentar poucas vezes e sempre em teatro, sem conseguir circular o tempo necessário e nem por outros espaços", diz Lenora.

Como se vê, os 20 anos do Alaya Dança apontam para um futuro recheado de mudanças produzidas pela ausência de programas de longo termo para a dança em nosso país.

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