Os duplos na arte de Gustavo Rezende

Artista abre exposição retrospectiva e lança livro em que se destacam personagens que servem à autoidentificação

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2013 | 02h15

Como o doutor Jekyll e o senhor Hyde do escocês Robert Louis Stevenson, o artista Gustavo Rezende anda sempre acompanhado de si mesmo, inventando duplos que atendem pelos nomes de Gus, Allan, Thompson, Mark ou Maxwell. Cada personagem é um "outro" na vida do arquiteto, desenhista e escultor mineiro nascido em Passa Vinte e radicado há anos em São Paulo. Eles estão todos reunidos na exposição retrospectiva Mergulho, que a Pinacoteca do Estado abre hoje, às 11 horas, com obras que cobrem boa parte da produção do artista, inclusive os autorretratos, igualmente marcados pela sombra do doppelgänger que assombra Gustavo. E é com sua persona que ele assina o livro Gus, publicado pela Editora Martins Fontes com patrocínio do Bradesco, que será lançado hoje na abertura da mostra.

Assim como os duplos, o corpo do artista também se adapta às tarefas que ele próprio se impõe, ora para refletir sobre o papel do autorretrato como fonte de autoconhecimento na história da arte - e o backlight Retrato do Artista Quando Jovem (1998), evoca, de fato, o exemplo renascentista do gênero -, ora para parodiar a sintaxe publicitária - como em Hero (2001), três fotos digitalizadas dispostas num painel mecânico que move imagens de um atleta nadando (o próprio artista) num display de propaganda.

Quando conquista o espaço tridimensional, a imagem do artista submete-se a um drama criado para cada um de seus personagens que, embora adotem o corpo de Gustavo como modelo, seguem uma narrativa fabular muitas vezes inspirada no universo literário ou musical. À primeira vista, a semelhança com as figuras humanas esculpidas por Anthony Gormley se impõe, mas logo desaparece. O brasileiro não está particularmente interessado na experiência matérica do inglês - a do corpo como um evento real inserido no tempo -, mas no aspecto simbólico da figura, um autorretrato indéxico, para usar um termo peirceano, quase uma prova material de autoidentificação em tempos confusos.

O curador da exposição, Ivo Mesquita, diretor da Pinacoteca, diz que seu imaginário tem algo da inocência infantil do mundo de fadas e heróis, apontando uma obra formada por duas peças que evocam a máscara de ferro do herói romântico de Dumas - que, nunca é demais lembrar, poderia ser o irmão gêmeo de Luís 15. Essa duplicidade dialoga, sim, com o universo de Gustavo, mas ele diz que fez a peça Cara de Cavalo e o Drama da Arte (1992) pensando no bandido amigo de Hélio Oiticica e na questão da imaterialidade da obra de arte. Há casos, como Siegmund e Sieglunde, irmãos gêmeos e noivos incestuosos da ópera A Valquíria, de Wagner, que reforçam essa atração, mas, segundo Mesquita, o uso de personagens wagnerianos é apenas um pretexto para se reapropriar da história da arte e rediscutir o uso de materiais tradicionais - Gustavo usa bronze e madeira em suas esculturas.

A presença da morte é um aspecto pouco discutido na obra do artista, mas ele chama a atenção para peças que tratam justamente da afirmação da subjetividade numa sociedade que decreta o linchamento moral do "diferente", como em Crepe Sexy Thing, em que um trio infernal abusa com violência de uma vítima (obra em que as figuras de crepe fazem lembrar sombras chinesas).

Entre os duplos de Gustavo destaca-se a figura de Maxwell, vista no alto desta página tentando escalar uma prancha de mármore. É uma escultura que tanto pode ser associada a Giacometti como a Gormley, por se tratar de uma metáfora da construção de identidade, mas que, ao contrário dos dois, serve a uma discussão de cunho sociológico. "Uso Maxwell para falar da voracidade brasileira, da construção de um país que passa pela esgotamento de seus recursos minerais." Nele, talvez só seja mesmo possível sobreviver por meio de uma ou mais personas.

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